A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987)

Nos anos 70 uma figura insuspeita emergiu no cenário da literatura, o escritor Joseph Wambaugh, que era um policial do Departamento de Polícia de Los Angeles, e cujos romances logo se tornaram best-sellers. Apesar do rápido reconhecimento, ele não abandonou de imediato o distintivo e permaneceu ainda algum tempo na força, como se relutasse em soltar de vez a arma para bater à máquina de escrever. Algumas de suas obras de ficção e não-ficção policial foram adaptadas para o cinema, como a obra-prima OS NOVOS CENTURIÕES (The New Centurions, 1972), de Richard Fleischer, THE CHOIRBOYS (1977), de Robert Aldrich e ASSASSINATO A SANGUE FRIO (The Onion Field, 1979), de Harold Becker. Agora, um dos aspectos mais interessantes desse fato de Wambaugh ser um autor-policial, ou seja, sua relação criativamente simbiótica com a criminalidade que o inspirava, é que poderia por si mesmo se tornar uma fonte de exploração.

Foi justamente isso que o Larry Cohen fez quando escreveu o roteiro de A MARCA DA CORRUPÇÃO (Best Seller, 1987). Sem adaptar diretamente livros de Wambaugh, o sujeito se inspirou na sua persona e numa história da criação de um livro que atravessa o vínculo paradoxal entre dois adversários e nos compromissos morais que isso acarreta. Um filme que confronta diretamente o que há de mais fascinante na relação entre policial e criminoso, a ideia de policial e assassino como dois lados da mesma moeda, o que não é exatamente algo original. Mas o que torna A MARCA DA CORRUPÇÃO um filme singular nesse sentido é a forma como ele articula esses elementos que fazem essa fusão funcionar na literatura e no cinema policial.

Belíssimo roteiro de Larry Cohen, diga-se de passagem, um dos melhores que já escreveu, dá até pena dele não ter também se colocado como diretor, teria feito um baita trabalho, como lhe é comum. Dos melhores diretores americanos da sua geração, como ressaltei no post anterior. No entando, como é o John Flynn no comando, não tenho nada do que reclamar. E sim, eu sei que o próprio Flynn retrabalhou o roteiro às suas sensibilidades, mas isso não importa. Dois mestres trabalhando juntos só poderia resultar num filmaço, independente quem fosse o diretor aqui.

Então temos em A MARCA DA CORRUPÇÃO esse policial escritor chamado Dennis Meechum (Brian Dennehy) sendo atraído por um assassino de aluguel (James Woods) que deseja a publicação de um livro expondo seus antigos patrões. Larry Cohen puro. Quase uma meditação sobre as instituições corrompidas, o indivíduo como peça descartável no grande tabuleiro corporativo. Mas a ideia de simbiose é central em A MARCA DA CORRUPÇÃO, já que boa parte do filme gira em torno do tempo que Woods leva para convencer Dennehy de sua legitimidade. Isso não acontece porque Meechum realmente duvide, mas porque ele precisa de tempo para validar internamente o vínculo mal admitido que sente com o homem que afirma desprezar.

Suas dúvidas sobre a credibilidade de Woods lhe dão o tempo necessário para conciliar esse crescente sentimento de dependência empática. Para isso, ele precisa pôr de lado sua moralidade e é essa renúncia que o atormenta. Já Woods está além dessas questões morais. Apesar de querer contar todos os podres e ferrar com os antigos patrões, ele claramente se delicia com a ideia de expor o abismo moral por trás da ética corporativa, e assim se vingar por terem lhe descartado. Como Dennehy, ele sente que perdeu seu propósito e quer recuperá-lo e essa é a ligação em comum que os dois compartilham e superam na dependência emocional crescente entre si. Woods quer ser visto como alguém simpático, e embora Dennehy despreze os crimes corporativos, o que mais o incomoda é a ideia de Woods ser heróico de alguma forma.

O filme é bastante hábil nessas caracterizações complexas, e há uma energia perturbadora entre os dois atores. Há um charme dissimulado na arrogância de Woods, ao qual Dennehy também reage. Sintomaticamente, Woods diz que Dennehy gosta dele “apesar de si mesmo”, uma percepção que persegue Dennehy ao longo do filme à medida que o desprezo inicial vira vínculo relutante e depois respeito. Chega num ponto que o personagem de Dennehy vai na casa dos pais de Woods para conhecê-los, ver álbuns de fotos.

Parte do prazer em A MARCA DA CORRUPÇÃO está em acompanhar o dilema de Dennehy, como tornar Woods simpático no livro em que fez o acordo de escrever e, ao mesmo tempo, manter sua paz interior. Apesar de Woods ser claramente um personagem moralmente desprezível e sexualmente perverso – a cena em que ele assassina um sujeito numa cabine de fotos além de acentuar toda a sua perversidade, é dessas dignas de antologia do cinema de ação policial oitentista, desses momentos que comprova a genialidade de John Flynn como diretor – ele é humanizado ao longo do filme, que se transforma num estudo prolongado do processo da empatia e como ela pode suplantar qualquer código moral ou social.

A empatia pode ser um impulso humano natural, mas o filme a retrata como algo ambiguamente desviante. Dennehy percebe isso e tenta constantemente se agarrar às diferenças entre eles, como policial e assassino. Enquanto Woods tenta apagar essa linha. E o filme faz com que o espectador compartilhe dessas emoções ambíguas. Essa autorreflexão sobre narrativas, jogos de poder, personagem e empatia é o que realmente diferencia Best Seller. Mas também tem John Flynn inspirado na condução de tudo, sempre econômico, com sua precisão característica. E embora o filme tenha essas camadas mais complexas, como quase todo filme que Larry Cohen esteja envolvido, Flynn ainda arruma tempo pra filmar alguns dos tiroteios mais elegantes dos anos 80, secos e sem muito glamour. Só com a noção espacial, composições, ritmo. Mestre supremo da ação.

Este texto é uma homenagem ao grande João Palhares, do blog Cine Resort. Um dos maiores admiradores de A MARCA DA CORRUPÇÃO que se tem notícia.