MOMENTO JESS FRANCO: RESIDENCIA PARA ESPÍAS (1966)

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Se fosse realizado uma década depois, RESIDENCIA PARA ESPIAS provavelmente teria excelentes motivos para que o mestre espanhol Jess Franco explorasse a sua maior especialidade: putaria. Ele iria às favas com a trama (roteiro acabaria se tornando um objeto quase obsoleto para o diretor) e passaria o filme inteiro dando zoons em prexecas cabeludas de atrizes robustas, certamente Linna Romay, sua musa e esposa, teria um papel de destaque. Mas estamos em 1966 e Franco ainda não havia descambado para essas peculiaridades da forma como vemos em seus filmes a partir dos anos setenta.

RESIDENCIA PARA ESPIAS acaba soando até simpático, adjetivo estranho para elogiar um filme do prolífico diretor, mas é um bom termo para definir esta obra de início de carreira (era o décimo primeiro filme do homem, mas pra quem já fez quase duzentos não é nada). Além de ser uma leve comédia, o filme é um autêntico Eurospy – subgênero criado na esteira dos filmes do agente 007 e que gerou uma infinidade de cópias, paródias, homenagens e picaretagens no velho continente, principalmente na Itália, Espanha e França. Continue lendo

IDAHO TRANSFER (1973)

bscap0034O ator Peter Fonda possui três obras creditadas como diretor: o belo e poético western THE HIRED HAND (1971), o simpático WANDA NEVADA (1979) e este IDAHO TRANSFER, que resolvi assistir outro dia e acho que vale alguns comentários, um trabalho do homem praticamente esquecido, que é também um estranho sci-fi ecológico com viagem no tempo.

(Mas só para constar, não custa lembrar que apesar não receber créditos na direção de EASY RIDER, é notório que Fonda dividiu o serviço com o Dennis Hopper.)

IDAHO TRANSFER é basicamente um filme síntese dos temores setentistas em relação ao futuro da terra. Propõe que nós, seres humanos, vamos acabar nos destruindo e, mesmo conscientes disso, é inevitável. O que é bastante óbvio, na verdade, passados mais de quarenta anos que o filme foi feito, porque de fato estamos arrasando ecologicamente com o planeta, sabemos disso e mesmo assim vamos foder com tudo. Talvez naquela época isso não fosse tão claro quanto hoje. Talvez ainda tivessem esperança.

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Na trama um projeto científico torna possível a viagem no tempo. No entanto, apenas jovens com seus vinte e poucos anos são capazes de sobreviver às repetidas idas e vindas temporais. Durante essas jornadas, descobre-se que o futuro não é nada otimista e uma catástrofe ecológica pôs fim a vida na terra.

Coloca-se em prática, portanto, um plano secreto para enviar um grupo de jovens ao futuro com recursos e disposição para iniciar uma nova civilização. Mas a coisa desanda porque o projeto acaba ameaçado pelo governo fazendo com que os mancebos fiquem presos no futuro e obrigados a encarar essa realidade catastrófica que devastou a humanidade, além de outros detalhes que tornam a vida desses indivíduos ainda mais problemática… Continue lendo

CINEMA AMERICANO DOS ANOS 90

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FOGO CONTRA FOGO

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FUGA DE LOS ANGELES

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O PAGAMENTO FINAL

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SHOWGIRLS

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O REI DE NOVA YORK

A Revista Interlúdio publicou recentemente uma relação dos melhores filmes americanos dos anos 90, que aliás serve de referência para demonstrar como essa década em particular gerou belíssimas obras-primas na terra do Tio Sam. Atendendo a pedidos, resolvi fazer uma lista também. Vinte títulos em ordem de preferência e apenas um filme por diretor para abrir mais o leque de possibilidades (porque só Scorsese, Carpenter, Verhoeven, Eastwood e Ferrara já praticamente fechavam a relação):

20. SHOWDOWN IN LITTLE TOKYO (1991), de Mark L. Lester
19. CAÇADORES DE EMOÇÃO (Point Break, 1991), de Kathryn Bigelow
18. BARTON FINK (1991), de Joel e Ethan Coen
17. DIE HARD: WITH A VENGEANCE (1995), de John McTiernan
16. A AMBULÂNCIA (The Ambulance, 1990), de Larry Cohen
15. A ESTRADA PERDIDA (Lost Highway, 1997), de David Lynch
14. NA TRILHA DO SOL (The Sunchaser, 1996), de Michael Cimino
13. ED WOOD (1994), de Tim Burton
12. JACKIE BROWN (1997), de Quentin Tarantino
11. DE OLHOS BEM FECHADOS (Eyes Wide Shut, 1999), de Stanley Kubrick
10. CASSINO (1995), de Martin Scorsese
09. O PODEROSO CHEFÃO III (The Godfather – Part III, 1990), de Francis F. Coppola
08. TERMINATOR 2: JUDGMENT DAY (1991), de James Cameron
07. LITTLE ODESSA (1994), de James Gray
06. OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood
05. KING OF NEW YORK (1990), de Abel Ferrara
04. SHOWGIRLS (1995), de Paul Verhoeven
03. O PAGAMENTO FINAL (Carlito’s Way, 1993), de Brian De Palma
02. FUGA DE LOS ANGELES (Escape from LA, 1996), de John Carpenter
01. FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995), de Michael Mann

ESPECIAL DON SIEGEL #14: CONTRABANDO DE ARMAS (The Gun Runners, 1958)

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CONTRABANDO DE ARMAS é baseado no mesmo conto do bom e velho Ernest Hemingway que Howard Hawks usou para realizar UMA AVENTURA NA MARTINICA (To Have and Have Not, 1944) e Michael Curtiz em REDENÇÃO SANGRENTA (The Breaking Point, 1950). Chega a ser constrangedor da minha parte (especialmente sendo um grande admirador de Hawks), mas nunca assisti a nenhum dos dois, ao contrário do diretor Don Siegel antes de dirigir este aqui: “Me arrependi muito de tê-los assistidos, porque percebi como era totalmente absurdo que eu fizesse (mais uma versão)”. 

Siegel ainda completa: “(…) ambos contaram com elencos melhores, argumentos melhores, mais dinheiro e mais tempo.” Bom, Siegel sempre conseguiu se sair bem com pouco tempo e orçamentos apertados. Agora, sobre argumentos, não tenho como comparar, mas mesmo não tendo assistido às versões anteriores, deve ser difícil não concordar com o sujeito sobre o seu elenco. Especialmente em se tratando do protagonista, o herói do filme, a não ser que alguém aí seja fã do Audie Murphy… Herói de guerra que acabou virando ator, Murphy conseguiu relativo sucesso nos anos 50. Tanto que CONTRABANDO é o segundo filme que estrelou sob a direção de Siegel. O primeiro foi o western ONDE IMPERA A TRAIÇÃO, já comentado aqui no blog.

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O fato é que Murphy nunca foi lá um dos meus atores de ação favoritos desse período. Longe disso, aliás… Seu rostinho de bom moço não se encaixa bem aos papeis durões que tentava fazer. E comparando com as outras versões do conto de Hemingway, temos um John Garfield, na versão de Curtiz, e Hawks tinha a sua disposição ninguém menos que o gigante Humphrey Bogart. Quem é Murphy perto de Bogart? Continue lendo

SETE ANOS NA TELA

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Tá certo que estamos apenas desde 2013 neste endereço, mas o blog Dementia 13 deu-se início no dia oito de agosto de 2008, portanto hoje completam sete anos de sua existência. Vida longa ao blog, e que venham outros sete, dezessete, e muito mais…

Sim, além deste post informativo de aniversário, quero avisar que o blog não foi abandonado, está apenas empoeirado… O Dementia 13 está apenas passando por umas prolongadas férias por conta de uma coisa chamada vida, que me deixou sem tempo. Daqui a pouco retornamos com mais daquele tipo de cinema que vocês já estão acostumados a encontrar por aqui.

MOMENTO JESS FRANCO: VIRGIN REPORT (Jungfrauen-Report, 1972)

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A virgindade sempre foi tema de interesse na obra de Jess Franco. Vez ou outra aparece uma virgem como elemento de reflexões filosóficas e… ok, quem eu tô tentando enganar? O fato é que Franco resolveu realizar VIRGIN REPORT, o pseudo-documentário definitivo sobre o assunto, para dar vazão à uma de suas obsessões, examinar a questão da virgindade em diversas culturas diferenciadas ao logo dos séculos e em vários locais ao redor do planeta. Obviamente, tudo uma mera desculpa para filmar mulheres nuas. Continue lendo

MUSA DA SEMANA: BARBARA CRAMPTON

Depois de assistir ao horror WE ARE STILL HERE (2015), de Ted Geoghegan, a musa da semana só poderia ser a deusa do terror oitentista Barbara Crampton.

E só pra constar, trata-se do melhor filme de horror do ano, até o momento, junto com IT FOLLOWS (2014), de David Robert Mitchell. Se não viu ainda nenhum dos dois, corra pra vê-los o mais rápido possível.

Mas agora, Miss Crampton na Playboy americana de Dezembro de 1986:

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ESPECIAL DON SIEGEL #13: O SÁDICO SELVAGEM (The Lineup, 1958)

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Dez anos antes de estrelar o melhor filme que existe no universo (TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone), Eli Wallach estreava na tela grande com BABY DOLL, de Elia Kazan. O ego inflou, o sucesso lhe subiu a cabeça, e quando foi contratado para viver o gangster psicopata Dancer, em THE LINEUP, ficou aborrecido por seu segundo filme ser um crime movie aparentemente rotineiro, um passo atrás em relação ao seu prestigioso debut. No entanto, estamos tratando de um filme de Don Siegel e talvez Wallach não soubesse do que o homem era capaz de fazer. O fato é que aos poucos, enquanto as filmagens iam acontecendo, o ator percebeu a profundidade e complexidade do personagem que estava compondo e passou a ficar mais simpático ao projeto. Continue lendo

THE WHIP AND THE BODY (La Frusta e il Corpo, 1963)

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Muitos sites famosos de cinema por aí estão dando a notícia da morte do grande Christopher Lee relembrando seus “principais trabalhos”, ou seja, Saruman, na série O SENHOR DOS ANÉIS, e o Conde Dooku na última trilogia de STAR WARS. E tem gente que ganha dinheiro escrevendo essas merdas… Como eu não ganho nada para estar aqui escrevendo, também não vou tentar fazer jus ao nome deste magnífico ator, um dos últimos ícones do cinema clássico que nos deixa e que merecia vários artigos e resenhas de seus filmes espalhados para todo canto. Mas deixo aqui as minhas impressões sobre um filme especial, um dos meus favoritos com o Chris Lee, e que dificilmente será lembrado nos obituários dos grandes veículos de comunicação: THE WHIP AND THE BODY, dirigido pelo mestre Mario Bava. Continue lendo

SHE MOB (1968)

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A Something Weird Video é uma famigerada distribuidora americana especializada em bagaceiras undergroundtrash, exploitations, responsável por lançar petardos dirigidos por Herschell Gordon Lewis, Doris Wishman e diversos outros diretores. Um bom exemplo é SHE MOB, uma tralha que só mesmo a SWV teria a cara de pau de distribuir. É um verdadeiro achado, mas tenho o dever de avisar que só vai prestar mesmo para os trashmaniacos profissionais, é o típico filme que de tão mal feito, tão horrível em diversos aspectos, acaba sendo genial. Ou como diz um sujeito no imdb: “its incompetently made, but it has that special and rare sort of ineptitude that crosses the line over into surrealism“. Continue lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #12: BABY FACE NELSON (1957)

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E eis que Don Siegel resolve fazer um filme meio biográfico de uma das figuras criminosas mais fascinantes da história americana, Lester J. Gillis, mais conhecido por seu apelido, Baby Face Nelson. Tal fascínio é menos por uma eventual identificação do personagem com o público – o cara era um psicopata desprezível – e mais pelas possibilidades de um estudo de personagem cheio de características dramáticas e psicológicas e pelo momento histórico rico em detalhes. E a visão de Siegel sobre o sujeito em BABY FACE NELSON não poderia ser diferente: crua, revisionista e extremamente brutal. Continue lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #11: A RUA DO CRIME (Crime in the Streets, 1956)

É interessante um filme como A RUA DO CRIME na filmografia de Don Siegel logo após um clássico como VAMPIROS DE ALMAS. A história é “menor”, o orçamento continua curto, mas percebe-se claramente um sujeito bem mais maduro como diretor no trabalho visual, na decupagem, na direção dos atores, na dosagem do drama e até mesmo metendo o bedelho no roteiro. Foi escrito por Reggie Rose, que também é o autor da peça na qual o filme se baseia. Siegel conta em entrevista que fez várias modificações no material de Rose, colocando em risco a relação entre eles, mas que eram, de acordo com ele, “absolutamente necessárias do ponto de vista cinematográfico.Continue lendo

OS INVASORES DE CORPOS (Invasion of the Body Snatchers, 1978)

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Ainda no clima de VAMPIROS DE ALMAS, resolvi assistir a OS INVASORES DE CORPOS, de Philip Kaufman, sua primeira refilmagem, lançada 22 anos depois. E que baita surpresa! Não esperava um filme tão bom, tão eficiente em termos de horror e suspense… Evidentemente, o contexto histórico e político dos Estados Unidos agora é outro, até mesmo o tipo de cinema que se praticava, na Nova Hollywood, havia mudado bastante nessas duas décadas que o separam, além de outras dezenas diferenças notáveis a olho nu, mas é impossível fugir de alguns temas e alegorias que permanecem intactas em relação ao filme original de Don Siegel. Continue lendo