TRÊS NOTÍCIAS

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Três boas notícias que podem alegrar sua segunda-feira:

 

• John Hillcoat, diretor de umas coisas fenomenais, como A PROPOSTA e A ESTRADA, foi escalado para dirigir um remake de WITCHFINDER GENERAL, clássico de Michael Reeves estrelado por Vincent Price. Será produzido por Nicolas Winding Refn.

• Assim que finalizar a ficção científica AD ASTRA, o próximo trabalho de James Gray será ARMAGEDDON TIME, que está sendo anunciado como um filme autobiográfico, baseado nas memórias de infância do diretor.

• Provavelmente meu diretor francês favorito em atividade, Leos Carax (LES AMANTS DU PONT-NEUF, POLA X, HOLY MOTORS), está preparando um novo filme, um musical chamado ANNETTE, que já tem confirmado Adam Driver e Marion Cotillard no elenco.

CEMITÉRIO MALDITO (1989)

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Acho que a força de CEMITÉRIO MALDITO, uma certa grandeza que o coloca acima de boa parte dos filmes de horror nos anos oitenta, reside na maneira como o filme lida com a morte. Vidas são tiradas a todo instante no cinema de horror e o público, obviamente, torce para que isso aconteça. A morte é banalizada e se torna uma diversão, ninguém quer assistir a uma continuação de SEXTA-FEIRA 13 e ver o Jason saindo de mãos vazias, certo? Mas aqui a morte, a perda, tem um peso dramático muito forte e coloca o espectador em confronto com a situação trágica da morte de um filho de forma extrema e direta.

A própria ideia básica do filme, notória adaptação de Stephen King, é muito perturbadora. A trama gira em torno de uma família que se muda para uma nova casa em Ludlow, no Maine. É uma típica família feliz, recomeçando a vida, até que um caminhão em alta velocidade muda tudo isso. E a existência de um cemitério de animais de estimação amaldiçoado que reanima os mortos piora ainda mais a situação…

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É evidente que há muitas coisas boas típicas do horror, elementos fundamentais, em CEMITÉRIO MALDITO para acalentar o coração dos fãs do gênero. É um filme muito sombrio com uma atmosfera densa em alguns momentos, especialmente nas sequências das visitas ao tal cemitério; temos algumas mortes criativas, uma boa dose de sangue, um gato zumbi, sonhos bizarros, aparições de uma figura fantasmagórica, entre outras coisas… No entanto, acima de tudo, CEMITÉRIO MALDITO funciona por causa do drama central que se desenrola a partir da perda trágica de um ente querido.

A sequência do caminhão é um primor. Mesmo quem percebe na hora o que está prestes a acontecer, acaba chocado pela coragem do filme em realmente chegar nos finalmentes e fazer o que tinha que fazer… Até porque sempre existiu o tabu de se matar crianças nos filmes dessa maneira. Mas só é mostrado o essencial: o moleque indo para a rodovia, o caminhão desatento se aproximando, um sapatinho vazio que rola no asfalto. O suficiente para nos deixar sem chão e passarmos a sentir a dor do protagonista (interpretado por um Dale Midkiff). Algo que no universo de King acaba sendo bem mais aterrorizante que o horror tradicional.

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Por muito tempo, quem esteve à frente do projeto e meio que possibilitou sua existência foi o pai dos zombie movies, George A. Romero, que já era naquela altura grande amigo de Stephen King, já haviam trabalhado juntos em CREEPSHOW, e acabou comprando os direitos do livro. No contrato, duas condições: a primeira é que o filme deveria ser rodado no Maine. Depois, o próprio King deveria escrever o roteiro. E foi o que aconteceu. A dupla preparou o filme por bom tempo até que surgiram algumas atribulações entre o diretor e o estúdio, que convocou Romero no meio desse processo insistindo em refilmagens de algumas sequências de INSTINTO FATAL (Monkey Shines), que Romero havia dirigido pouco tempo antes. Para não deixar a produção parada, Romero acabou pulando fora de CEMITÉRIO MALDITO, sendo rapidamente substituído por Mary Lambert, uma diretora de video clipes que só havia feito um longa até então, SIESTA, de 87, mas que já era vista como um talento promissor.

E Lambert deu conta, conseguiu dar vida ao roteiro de King, ao universo sempre tão particular de seu criador, com muita precisão e criatividade visual. Claro, seria ótimo ver como CEMITÉRIO MALDITO seria sob a batuta de Romero, mas não aconteceu. E eu simplesmente não tenho do que reclamar desta versão, que se tornou um dos meus clássicos favoritos do horror oitentista.

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No elenco, vale destacar Brad Greenquist, a figura fantasmagórica que mostra ao protagonista o limite que não se deve ultrapassar no “semitério”; Fred Gwynne, o eterno Herman Munster, da série dos anos 60 OS MONSTROS (ou A FAMÍLIA MONSTRO); e Miko Hughes, o garotinho zumbi demoníaco com um bisturi afiado nas mãos empenhado a matar.

Aparentemente, CEMITÉRIO MALDITO é a adaptação da obra de King mais apreciada pelo próprio autor; Óbvio, considerando que ele mesmo escreveu o roteiro e que detesta, por exemplo, a adaptação de O ILUMINADO, do Kubrick, não é muito difícil o cara ter preferência por este aqui. King até faz uma breve participação como um reverendo. O filme teve uma continuação nos anos 90, dirigido pela mesma Mary Lambert, e que preciso rever, não lembro de quase nada. E aí sim, estarei devidamente preparado para encarar a nova versão que ainda não parei pra ver.

10 DOUBLE ZERO, um cagesploitaion

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A sinopse oficial do filme diz que 10 DOUBLE ZERO será ambientados na Louisiana, onde dois policiais partem numa jornada de vingança caçando assassinos de policiais. Mas à medida em que se aproximam dos alvos principais, eles se vêem envolvidos numa conspiração dentro da força policial.

Nic Cage, pelo visto, anda com certa moral. Deve estrelar este aqui e já possui uma fila de produções a serem lançadas este ano, sendo que algumas eu estou realmente interessado em conferir, como COLOR OUT OF SPACE, de Richard Stanley, que eu já anunciei aqui, e PRISONERS OF THE GHOSTLAND, dirigido pelo japonês maluco Sion Sono.

10 DOUBLE ZERO já está em fase de pré-produção e será dirigido por Christian Sesma, um especialista em filmes de ação de baixo orçamento “direct to video” cujo trabalho eu não conheço. Quem sabe tá aí um novo talento a ser descoberto?

MAD MEL E SEU BANDO SELVAGEM

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Eu nem lembrava mais desse projeto, mas o site Deadline me lembrou hoje que Mel Gibson está envolvido na direção e no roteiro da refilmagem do clássico MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA. Aparentemente, Mad Mel começou a reunir o seu bando selvagem: Michael Fassbender, Jamie Foxx e o anão mais querido da atualidade, Peter Dinklage, entraram em negociações para fazerem parte do grupo.

É legal lembrar que a ideia de refilmar a obra-prima de Sam Peckinpah não é nenhuma novidade. Em 2006, por exemplo, o diretor e roteirista David Ayer estava em negociações para dirigir o remake. Na época, Ayer só tinha um trabalho no currículo como diretor, o ótimo TEMPOS DE VIOLÊNCIA (Harsch Times, 2005). Como se sabe, a coisa não foi pra frente. Por volta de 2011, Tony Scott era o nome anunciado para comandar a bagaça. No ano seguinte Toninho pulou de uma ponte e não está mais entre nós… Infelizmente, porque eu adorava o que ele vinha fazendo nos últimos anos antes de sua morte. E agora surge Mel Gibson e, pela primeira vez, a coisa toda não parece um boato. Aparentemente, o projeto está avançando.

E, olha, tô encarando isso com muita boa vontade. “Ain, mas não podem refilmar esse clássico do meu Peckinpah“. Porra, eu tô cagando que é um remake! Relevo totalmente esse fato! É um western com uma premissa massa dirigido pelo MEL GIBSON, bicho, com todas as liberdades criativas que ele quiser fazer. Ponto. O resto é resto… Só o fato de ter um anão no elenco já mostra que será diferente. Deve ser mais uma homenagem, algo que reverencia o original, do que um remake xerox.

O filme original, dirigido por Peckinpah é sobre um grupo envelhecido de foras-da-lei à procura de um último grande golpe enquanto o tradicional oeste americano desaparece ao seu redor e a era industrial começa a tomar conta de tudo. Eles são perseguidos por um bando liderado por um ex-parceiro. O filme tinha os casca-grossas Wiliam Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien, Warren Oates e Ben Johnson no elenco.

Por isso, a única coisa discutível até o momento é que o elenco que tem se formado até o momento é bem mais jovem, e eu preferia que pelo menos isso fosse como no original, com atores mais envelhecidos. Mas não dá pra querer tudo. Mel Gibson é um puta diretor e tem tudo pra ser um western fodido, cheio de sequências de ação com o primor que lhe é capaz, como em APOCALYPTO (2006) e ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Racksaw Hidge, 2016). Este, aliás, foi o último trabalho de Gibson na direção, e deve ter dado novamente uma moral ao sujeito. O filme foi um sucesso de crítica e comercial, arrecadando mais de US $ 170 milhões nas bilheterias e conquistando seis indicações ao Oscar, vencendo melhor mixagem de som e melhor edição.

BACURAU EM CANNES

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BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é o representante brasileiro em competição em Cannes. Ontem teve a sua estreia e parece que surpreendeu o público do festival. O tweet do crítico A. A. Dowd, do A.V. Club, me deixou bem animado:

BACURAU is wild shit. I would not have guessed that dude who made NEIGHBORING SOUNDS would turn around and (co)direct a movie that reminds me of John Carpenter, Wes Craven, and FIRST BLOOD. But this is where we are, and I’m glad we got here.

O filme ainda tem o grande Udo Kier no elenco… Enfim, agora BACURAU entrou definitivamente  na lista de prioridades para este ano.

CANNIBAL APOCALYPSE (1980)

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Apesar do título, é no mínimo questionável classificar CANNIBAL APOCALYPSE dentro do subgênero cannibal, tão comum no final dos anos 70 e início dos 80 no cinema popular de exploração italiano. Caso seja classificado, que seja então como um representante bastante alternativo, não compartilha virtualmente quase nada em comum com os outros filmes do subgênero. Não é uma aventura na selva, com exploradores se metendo com tribos canibais, por exemplo. E, embora eu não tenha do que reclamar da brutalidade por aqui, o nível de violência não chega nem perto dos excessos de um CANNIBAL HOLOCAUSTO, CANNIBAL FEROX e outros similares. Mas há comedores de carne no filme, obviamente, só que eles são habitantes “civilizados” da cidade de Atlanta, infectados por um vírus que lhe despertam desejo de carne humana.

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No entanto, CANNIBAL APOCALYPSE inicia realmente nas selvas, só que do Vietnã, durante a guerra, quando o oficial das Forças Especiais do Exército dos EUA, Norman Hopper (John Saxon), lidera um pelotão de soldados em uma missão de busca num complexo de cavernas Vietcong onde são mantidos prisioneiros de guerra. Depois de eliminar o inimigo num espetáculo de tiros e explosões, eles descobrem um buraco onde estão dois americanos capturados, Charlie Bukowski (sim, podem acreditar que esse é o nome do personagem vivido por Giovanni Lombardo Radice) e Tommy (Tony King).

Hopper fica feliz de vê-los ainda com vida – até porque conhece os sujeitos, ambos são de sua cidade natal – mas ao mesmo tempo, acaba tendo a visão aterradora deles devorando avidamente a carne de uma guerrilheira inimiga que havia caído lá dentro. Então, num rosnado selvagem, Tommy salta e dá uma mordida no braço estendido de Hopper.

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Nesse ponto, Hopper acorda de um pesadelo febril, na cama com sua esposa Jane (Elizabeth Turner) em Atlanta, anos depois da guerra. A sequência de abertura do filme foi um flashback/sonho de Hopper no Vietnã revelando um incidente que realmente aconteceu. Hopper está preocupado com o sonho; ultimamente ele desenvolveu uma estranha atração pela carne crua. Lutar contra esse desejo torna-se cada vez mais difícil, colocando uma pressão até sobre o seu casamento (isso sem falar na vizinha adolescente que lhe “atormenta” a vida com visitas inusitadas…).

Enquanto isso, Bukowski é libertado de uma ala psiquiátrica local, onde está encarcerado desde o fim da guerra. Supostamente curado, em seu primeiro dia de liberdade ele entra em conflito com uma gangue de motoqueiros, ataca uma mulher em um cinema (morde um pedaço sangrento do pescoço), depois mata duas pessoas em um mercado e fica encurralado enquanto os policiais cercam o prédio. Fiquei com a impressão que o sujeito não estava tão curado assim…

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Daqui pra frente, CANNIBAL APOCALYPSE se transforma num festival de mordidas violentas! Ao saber da situação de Bukowski, Hopper aparece no local e consegue convencê-lo a se entregar. Mas Charlie morde um policial no momento de ser colocado pra dentro do camburão. Em vez da prisão, Bukowski é transportado de volta para o hospital psiquiátrico, onde ele se reúne novamente com seu companheiro de guerra, Tommy. Este, acaba mordendo a perna de uma enfermeira, que o deixa amarrado a uma maca ao lado de Charlie, na ala de alta segurança.

Os médicos determinam que ambos são portadores de um vírus misterioso que de alguma forma os transforma em canibais. Mais tarde Hopper aparece no hospital e resolve libertar Charlie e Tommy e fugir com eles sabe-se lá pra onde… A enfermeira infectada por Tommy se junta a eles depois de morder a língua de um médico excitado. O inusitado quarteto rouba uma ambulância e parte para a noite deixando algumas vítimas no caminho, enquanto a polícia, liderada pelo Capitão McCoy (Wallace Wilkenson), se engaja em uma caçada frenética para deter os canibais antes que eles possam espalhar ainda mais o suposto vírus.

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Pois é, CANNIBAL APOCALYPSE é essa loucura absurda, mas interessante e divertido exemplar que se beneficia bastante da direção imaginativa e segura de Margheriti, que eleva o filme um ou dois níveis acima do habitual do cinema de exploração, além das performances sólidas do elenco, com destaque para Saxon e Radici. O conceito de um vírus canibal também é certamente uma das melhores ideias do filme, a de um fenômeno social representado no canibalismo como uma doença contagiosa, que é algo bem mais, digamos, reflexivo do que as filmagens de mortes de animais reais usadas nos cannibal movies tradicionais.

Eu sei, os efeitos especiais de CANNIBAL APOCALYPSE são de Giannetto De Rossi, que possui no currículo obras contendo algumas das mais extremas imagens do cinema italiano de gênero. Portanto, não é que não existam cenas de extrema violência gratuita e muitos efeitos sanguinolentos por aqui, só acho que não é somente nisso que Margheriti estava interessado… Mas os fanáticos por tais elementos mais impactantes não precisam se preocupar e vão se esbaldar, especialmente na cena de morte do personagem de Radice, filmado em toda a sua glória visceral. Não é a toa, portanto, que CANNIBAL APOCALYPSE tenha sido marcado por um histórico de censura e cortes em lançamentos pelo mundo. No Reino Unido, por exemplo, até 2005 o filme estava banido, assim como em outros países. No Brasil, foi exibido sem cortes em 1981 sob o título OS CANIBAIS DO HOLOCAUSTO. 

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DRAGGED ACROSS CONCRETE (2018)

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Assisti recentemente a DRAGGED ACROSS CONCRETE e não só confirma a belezura de filme que eu esperava (afinal, fora anunciado como um policial casca-grossa estrelado pelo Mel Gibson de bigode), um dos melhores do ano até o momento, como também coloca em definitivo o seu diretor, S. Craig Zahler, se é que havia alguma dúvida, entre os melhores da atualidade nesse ofício de fazer filmes.

Então temos Mel Gibson – de bigode – e Vince Vaughn (repetindo a parceria com o diretor) como uma dupla de detetives cujos ideais nem sempre vão de acordo com os burocráticos métodos da força policial. São do tipo que atiram primeiro e fazem perguntas depois. O tipo de policial asqueroso que só é bom no cinema. Na vida real, desprezo qualquer tipo de fascismo, obviamente. Como cinéfilo, no entanto, aceito qualquer ideologia radical que seja colocada na tela, até porque acima do discurso sempre tem o cinema, a linguagem e a ética de olhar o mundo sem falsidade. Zahler tem esse olhar e usa bem esse contexto como como trampolim narrativo, para a habitual jornada ao inferno que seus personagens traçam (como em BONE TOMAHAWK e BRAWL IN CELL BLOCK 99). E porque esse tipo de personagem – policiais reacionários – é foda pra caralho (no cinema).

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Ainda na trama, a dupla acaba se ferrando quando é flagrada por uma gravação de celular usando de força bruta pra cima de um suspeito durante uma batida policial. A mídia está pronta para cair matando em cima e o capitão da esquadra, interpretado pelo grande Don Johnson, dá à dupla uma suspensão não remunerada de seis semanas. Isso não ajuda muito os dois policiais, que precisam de seus contracheques para enfrentar os problemas financeiros do cotidiano, já que a vida é dura, policial ganha mal pra cacete, e trabalhar honestamente não “dignifica a alma”, como muitos dizem… Preocupações latentes no cinema de Zahler: amargas questões sociais e o tênue limite entre a justiça e a arbitrariedade.

Em determinado momento começa a tal “descida ao inferno”. O desespero começa a beliscar os calcanhares e os dois detetives decidem emboscar um grupo de ladrões de banco que acabou de fazer um puta assalto. O filme vira uma trama de gato e rato, com planejamentos, perseguições, tiroteios, assassinatos à sangue frio… Tudo o que precisamos num filme policial badass temos aqui. Mas bem ao estilo Zahler, o que significa acompanhar esses personagens ao submundo mais escabroso possível, onde os habitantes cruéis e sádicos não valem o peido de uma égua ​​e ainda assim é impossível tirar os olhos da tela.

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E Zahler me parece muito apaixonado por contar exatamente a história que quer contar, insistindo em cada detalhe de todas situações, personagens e possibilidades, e até cheguei a me perguntar se precisava daquilo tudo (o filme tem mais de 2h30m), que uma edição mais disciplinada poderia ter feito alguns favores… Mas ao final eu já estava tão imerso e envolvido no papo do Zahler, no ritmo lento, na tensão crescente cirurgicamente construída, no universo daqueles personagens, que sequências como a da participação de Jennifer Carpenter, por exemplo, que é totalmente descartável, nem me incomodaram. E o que poderia ser excesso nas mãos de uns, Zahler transforma em enriquecimento narrativo.

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E tudo é filmado com precisão, longos planos, com uma câmera rígida, um mínimo de edição, fundamental para sentir o peso das imagens, da atmosfera e da dor. Desde seu primeiro filme, Zahler trabalha com o mesmo diretor de fotografia, Benji Bakshi, o que deve ajudar a criar uma certa uniformidade autoral e visual na obra do diretor. A violência, outro elemento constante no cinema de Zahler, ainda que em menor escala por aqui, permanece brutal e fascinante como nos seus filmes anteriores. E assim S. Craig Zahler tem se estabelecido como uma das vozes mais distintivas do moderno cinema de ação/policial americano. E do horror, talvez?

Mel Gibson está do jeito que sempre gostamos. Em estado de graça, no papel de um policial cansado e fodido, uma espécie de Martin Riggs envelhecido, em descompasso com o mundo, anacrônico, enfim, um personagem que se encaixa como uma luva ao ator, que oferece uma de suas melhores performances desde os anos 90. Vê-lo descarregando chumbo em desafetos e recarregando seu revolver com uma agilidade impressionante é um dos grandes momentos do cinema em 2019. E, obviamente, tem o bigode mais badass do ano.

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Vaughn sempre a tentar se dissociar das comédias que fez ao longo da carreira, mas não tenho problema algum com ele fazendo papéis puramente dramáticos. Óbvio que de vez em quando dá a sensação de que fará uma piada a qualquer momento, mesmo em situações pesadas ou tensas. Mas seu desempenho aqui é sólido. Já tinha demonstrado que podia fazer sujeitos sérios e trágicos em BRAWL ON CELL BLOCK 99. Mas o filme não é apenas Gibson e Vaugh. É também Tory Kittles, que rouba o filme para si em vários momentos, vive um dos assaltantes de banco e possui o seu próprio arco dramático. No elenco ainda se destacam Michael Jai White (numa participação bem maior que eu esperava) e uma pontinha sempre bem-vinda de Udo Kier.

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Infelizmente, é mais um trabalho poderoso do Zahler que não teremos o prazer de ver nos cinemas. Portanto, assista da maneira que conseguir. Vale a pena.

Anna Karenina: A História de Vronsky em Blu-Ray e DVD

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ANNA KARENINA: A HISTÓRIA DE VRONSKY chega às lojas e sites no final de maio através da distribuidora CPC UMES FILMES.

Lançamento nos formatos DVD e Blu-Ray, o filme foi o primeiro que a CPC UMES FILMES lançou no circuito comercial de cinemas do país, no ano passado. O longa foi muito bem recebido, tanto pelo público quanto pela crítica especializada. O aclamado romance de Tolstoi ganhou nova perspectiva nas mãos do diretor Karen Shakhnazarov, que temperou a narrativa com os escritos de Vikenty Veresaev sobre a guerra russo-japonesa e contou a história a partir do ponto de vista do Conde Vronsky, amante de Anna.

No link a seguir, a pré-venda, já disponível no site da CPC UMES FILMES:
http://www.cpcumesfilmes.org.br/prestashop/37-anna-karenina-a-historia-de-vronsky

BRAWL IN CELL BLOCK 99 (2017)

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Devo postar essa semana algumas impressões sobre o novo filme do S. Craig Zahler, DRAGGED ACROSS CONCRETE, que é um dos melhores filmes deste ano até o momento (junto com A MULA e GLASS), mas enquanto não finalizo o post, republico e atualizo o textinho sobre BRAWL IN CELL BLOCK 99, o filme anterior de Zahler, que escrevi para o Action News. BONE TOMAHAWK, o primeiro trabalho do homem já escrevi também por aqui…

Este último, aliás, pegou muita gente de surpresa. Claro, parecia promissora essa mistura de horror e western lá por volta de 2015, que tinha Kurt Russell no papel principal, mas acho que ninguém esperava que seria uma obra tão madura, brutal e fascinante vindo de um diretor estreante. Estreante, mas demonstrando talento, impondo uma narrativa de ritmo lento e poético em contraste com um excesso retumbante de violência, construindo personagens fortes, configurando uma crescente de tensão cujo parâmetro remete quase literalmente à uma descida ao inferno.

O receio com diretores estreantes que lançam obras poderosas logo de cara é algo comum. Se errasse a mão num filme seguinte eu já estaria preparado para isso. Acontece. BONE TOMAHAWK poderia ter sido apenas um acidente. Não foi. BRAWL IN CELL BLOCK 99, seu segundo trabalho, mostra que o diretor não está para brincadeiras. Um baita filmaço que narra mais uma jornada às profundezas da degradação humana recheado de violência e ainda apresenta uma performance espetacular de Vince Vaugh, o elemento mais indispensável à condução da narrativa.

Vaugh é Bradley Thomas, um ex-pugilista, alcoólatra em recuperação, um motorista de reboque que acabou de perder o emprego, marido traído e o satanás em pessoa quando precisa usar as mãos, fruto de um código de honra que carrega no fundo da alma. Há uma cena em que o sintetiza bem, quando descobre que sua mulher esteve pulando a cerca. Bradley não é um homem abusivo, mas ele reage da maneira que consegue naquele momento: estraçalhando metodicamente seu carro com as mãos nuas.

Depois de resolver seus problemas matrimoniais e preservar seu casamento, Bradley decide voltar a um trabalho antigo, entregando “pacotes” para um traficante local. Dezoito meses depois, o sujeito está bem melhor financeiramente, morando numa casa confortável e espaçosa, e sua esposa grávida de seis meses. Contra o instinto de Bradley, seu chefe entra em negociação com um poderoso narcotraficante, Eliazar (Dion Mucciacito), para realizar um trabalho. Durante a empreitada, Os homens de Eliazar fazem merda e acabam trocando tiros com a policia. No meio da confusão, Bradley resolve mirar nos traficantes ao invés dos tiras…

Isso não ajuda muito no seu julgamento, e depois que se recusa a entregar qualquer nome de seus associados, Bradley é condenado a sete anos em uma prisão de segurança média. Mas os problemas de Bradley começam mesmo quando recebe a visita de um misterioso homem (Udo Kier) que representa o traficante Eliazar. O sujeito não está nada feliz com as ações que Bradley tomou durante o tiroteio, o que custou dois de seus homens e alguns milhões de dólares.

Para resumir, Eliazar tomou a esposa de Bradley como refém e tem um abortista à sua disposição com algumas ideias bem sádicas na cabeça, só para assegurar que o protagonista pague sua dívida. Na verdade, Bradley recebe uma missão: assassinar um indivíduo que se encontra detido numa prisão de Segurança Máxima, no tal bloco 99. Só que para chegar lá, Bradley terá que aprontar um bocado, o que significa uma jornada sangrenta de muita pancadaria e ossos quebrados rumo a um verdadeiro inferno.

Para quem está familiarizado com BONE TOMAHAWK, vai perceber como as duas obras dialogam entre si na gradual construção de tensão, numa metodologia de cicatrização lenta. Zahler novamente demonstra uma habilidade única para construir um universo em que a narrativa existe em seus próprios termos e ritmo. Os quadros que duram o tempo que tem que durar (e que fazem uma busca quase obsessiva pela mesma perspectiva), os pequenos detalhes visuais que enriquecem a narrativa (reparem nas diferenças, tanto sutis quanto gritantes, entre os presídios de segurança média e máxima, até chegar no nível mais baixo em termos de cenário de prisão), na sensibilidade para a elaboração de uma história que se desenrola com personagens vividamente detalhados.

Diferentes cenários, mesma obsessão de perspectiva.

Tal como em BONE TOMAHAWK – que toma seu tempo e leva mais da metade de projeção para chegar ao ponto crucial da sua trama de pesadelo e violência – BRAWL IN CELL BLOCK 99 também não tem muita pressa para chegar ao cenário do título. Em vez disso, passamos boa parte do filme assistindo a um homem que recebeu uma dura pancada da vida, fez escolhas “erradas” e agora precisa fazer o que é necessário manter seu código, para fazer o que é “certo”.

Vaughn é uma revelação aqui, cada momento seu na tela é a indagação de escolhas morais, sobre os “certos” e “errados”, que um sujeito precisa fazer quando está disposto a encarar todos os castigos imagináveis ​​para garantir o bem estar daqueles que ama. E Vaugh entrega uma performance notável, uma performance física, com um uso do corpo de forma magistral, dando um impulso ainda mais extremo para as cenas de violência. Além de Vaugh e Kier, o elenco ainda conta com Don Johnson (DEAD BANG) como carcereiro casca-grossa de penitenciária, e Jennifer Carpenter (DEXTER) fazendo esposa de Bradley.

O filme confirma o escritor-diretor Craig S. Zahler como um dos grandes talentos do cinema americano atual e é uma que este trabalho nunca tenha chegado nas salas de cinema aqui no Brasil… Mas tudo bem, um filme como BRAWL IN CELL BLOCK 99 não merece mesmo um público bunda-mole como o nosso. A jornada moral de Bradley é uma experiência intensa que será reduzida como “cinema choque”, “violento demais”, e toda a reflexão imbuída e o que ela representa será ignorada. Para cinéfilos mais “experimentados” isso aqui é ouro.

TÚMULO SINISTRO (1964)

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TÚMULO SINISTRO (Tomb of Ligeia) foi a última colaboração de Roger Corman com o ator Vincent Price, depois de uma série de adaptações da obra de Edgar Allan Poe (e um único que era baseado em Lovecraft, O CASTELO ASSOMBRADO) na primeira metade dos anos 1960, resultando numa parceria de sete filmes fundamentais na carreira de ambos e que qualquer interessado em horror deveria dar uma atenção.

O filme é sobre um cavalheiro inglês, Verden Fell, interpretado pelo Price, cuja morte de sua esposa, Lady Ligeia, lhe deixa um bocado transtornado, vivendo uma vida solitária em sua propriedade (exceto por seu mordomo e um misterioso gato preto), torturado, lamentando a morte de sua amada. Então ele conhece Lady Rowena, uma linda mulher que se parece com sua falecida esposa (ambas são interpretadas por Elizabeth Shepherd) e apesar do jeitão sinistro e melancólico ela é atraída por Verden, que se apaixona e acabam se casando.

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No início, a vida a dois entre Verden e Rowena é só alegria, com o casal viajando Europa à fora, conhecendo lugares distintos e sempre apaixonados. O problema é quando retornam à propriedade e a “presença” metafísica de Ligeia coloca tudo a perder. Verden passa a maior parte do tempo isolado em seus experimentos ou no cemitério nas ruínas de uma grande igreja onde está a tumba de sua primeira esposa, um tipo de obsessão mórbida sempre explorado neste ciclo Edgar Allan Poe.

Enquanto isso, Rowena passa a ter sonhos terríveis (que sãos algumas das melhores cenas do filme) e é perseguida pelo tal gato preto, que parece possuído. Aos poucos, Verden tem certeza de que está enlouquecendo – ou acredita que sua nova esposa está sendo dominada pelo espírito maligno e imortal de Ligeia. O que acontece a seguir é um típico final ao estilo Roger Corman nas suas adaptações de Poe: o mundo desaba, é consumido pelo fogo, pelo horror extremo e Vincent Price desempenhando sua dança da morte, num espetáculo de enquadramentos, efeitos especiais arcaicos e cores.

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Em TÚMULO SINISTRO, Corman faz um esforço consciente para se afastar da aparência estética de seus filmes anteriores do ciclo Poe. Em vez de filmar quase inteiramente em estúdio (como havia sido seu habitual até então), o sujeito optou por muitas externas, confiando menos em nevoeiros pesados e cores vibrantes, e mais nas paisagens naturais as quais explora com uma câmera exuberante: as ruínas, o campo, a cena em que o casal visita Stonehenge, enfim, muitas das cenas acontecem sob a luz do sol. Provavelmente o filme menos dark do ciclo, embora o tom e a construção da obra ainda sejam de um terror clássico, apenas menos estilizado e atmosférico em relação ao que Corman havia feito antes.

Mas ainda assim é um filme que enche os olhos. O visual não deixa de ser deslumbrante, de qualquer forma, especialmente com o trabalho cromático. O uso do vermelho como elemento dramático, por exemplo, cria sensações bem interessantes no decorrer do filme.

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Price sempre inspirado, oferece aqui mais uma performance expressiva, digna de antologia nessas adaptações de Edgar Allan Poe, fazendo um personagem muito no seu habitual, mas ao mesmo tempo sutilmente destoa de outros que interpretou: assustador e imponente, mas frágil, torturado e com toques bem, digamos, perturbadores… Há uma situação que pode passar despercebido e ficar muito à imaginação do espectador, mas nada tira da minha cabeça que claramente seu personagem pratica necrofilia, algo que obviamente não poderia ser explorado às claras no período, mas que Corman dá um jeitinho de insinuar e subverter.

O roteiro de TÚMULO SINISTRO foi escrito por Robert Towne, um dos pupilos de Corman no período – seu primeiro script foi escrito para o diretor, LAST WOMAN ON EARTH (60). Dez anos depois, o sujeito ganharia o Oscar com seu roteiro para CHINATOWN, de Roman Polanski.

Outros filmes do ciclo Edgar Allan Poe que já comentei por aqui:
O SOLAR MALDITO
O POÇO E O PÊNDULO
OBSESSÃO MACABRA

TARANTINO EM CANNES

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Depois de alguma hesitação, se Quentin Tarantino conseguiria finalizar seu novo filme, ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD, a tempo de uma premiere no festival de Cannes, que começa no próximo dia 14, a organização do evento anunciou hoje que o filme do sujeito estaria oficialmente pronto para o mundo.

Aos 45 do segundo tempo, portanto, depois de uma primeira lista de filmes em competição já ter sido anunciada, como disse neste post, teremos Tarantino com ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD na disputa pela Palma de Ouro, 25 anos depois de ter ganhado o prêmio neste mesmo festival com PULP FICTION.

Ambientado em Hollywood, no final dos anos 1960, ONCE UPON A TIME IN HOLLYWOOD é estrelado por Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, respectivamente, como Rick Dalton, um ator de filmes de ação, e Cliff Booth, seu dublê de longa data. Os dois moram ao lado de Sharon Tate (Margot Robbie), a atriz grávida, esposa do diretor Roman Polanski, que foi assassinada pelos seguidores de Charles Manson em 1969.  Curioso para saber como Taranta vai retratar todo o universo que rodeia esses acontecimentos… Emile Hirsch, Timothy Olyphant, Kurt Russell, Bruce Dern, Damian Lewis, Dakota Fanning, Al Pacino, e vários outros, estão no elenco.