O PROFISSIONAL (Le Professionnel, 1981)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #03
POR GUSTAVO SANTORINI

– Eu vou morrer?
– Sim. Está com medo?
– Não… Por quê?
– Se fosse eu, teria.
– Isso é porque você vai para o inferno.

O diálogo acima, travado entre dois homens que acabaram de escapar da prisão, e cujas palavras soariam grosseiras se não estivessem imbuídas de uma sinceridade tocante, ocorre logo nos primeiros vinte minutos de filme. O primeiro homem fora baleado gravemente durante a fuga e agora se encontra as portas da morte, a cabeça apoiada no colo do segundo, que escapara ileso. A cena é poderosa por revelar o único instante de genuína afeição do protagonista por outra pessoa, além de ressoar como um acorde sombrio durante a projeção. Seu destino final é tristemente previsível, mas isso é o que menos o preocupa.

LE PROFESSIONNEL, ou O PROFISSIONAL, título que em português pode confundir com o badalado filme de Luc Besson de 1994 (ambos guardam vagas semelhanças, a começar pelo personagem principal, um francês exímio matador), é uma daquelas joias pouco comentadas que, ao desencavarmos quase que ao acaso, sentimos um misto de orgulho e gratidão por tê-las conosco. Durante os créditos iniciais, quando surgem as primeiras notas da esplêndida canção composta pelo maestro Ennio Morricone, pontuadas por imagens esparsas que ao final se revelarão momentos importantes dentro do filme (um recurso que seria copiado a exaustão em outras obras), temos a sensação de que estamos em boas mãos e dificilmente iremos nos decepcionar. O enredo, co-escrito por Jacques Audiard, que no futuro faria sucesso dirigindo dramas criminais, como O PROFETA (2010), é simples como um saboroso pão com mortadela. Joss Baumont (Jean Paul Belmondo) é um agente secreto enviado para uma republiqueta qualquer da África, a fim de matar o presidente Njala. Entretanto, no ultimo momento a situação política muda e o serviço secreto francês entrega o agente de bandeja às autoridades africanas, fazendo com que ele seja condenado a prisão. Abandonado a própria sorte, Baumont consegue escapar, e então retorna a França para concluir o serviço, o qual talvez seja o último. Ele faz questão de avisar seus ex-chefes sobre sua presença, prometendo matar Njala, que está em visita oficial ao país. Assim que o alarme é soado, a alta cúpula do serviço secreto fica em polvorosa, conforme expressa um dos funcionários ao ministro: “Olha para nós, senhor. Essa é apenas a nossa primeira noite sem dormir. Haverá outras.” Um jogo de gato e rato se inicia, e o ex-agente passa boa parte do filme se divertindo com o embaraço de seus algozes que chegamos a desconfiar de suas verdadeiras intenções.

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Ao reencontrar a esposa após um hiato de dois anos, ambos tiram o atraso. Passado o gozo, ela o interpela: “E agora, o que vai ser de nós?”. Os modos gentis de Baumont não suavizam a aspereza da resposta: “Enquanto certas pessoas estiverem vivas, não haverá nós”. Se em ACOSSADO, seu papel mais emblemático, Belmondo faz um tipo presunçoso que finge ser mais fodão do que é, em LE ROFESSIONNEL ele não perde tempo fingindo. A fim de comprovar sua astúcia sobre os demais, o ex-agente não hesita em usar a própria esposa, como vemos na sequencia magistral em que, após chegar ao apartamento da mulher, ele liga para seus perseguidores e se esconde a um canto, aguardando a chegada deles, que mordem a isca. Uma agente arrasta a esposa até a banheira e a afoga, a fim de forçá-la a dar o paradeiro do marido, enquanto o inspetor aguarda na sala. Beumont sai do esconderijo e salva a esposa, lançando a agente na banheira. Os ruídos e soluços chegam ao outro cômodo, e dão a entender que se trata da esposa sendo torturada. Quando esta reaparece na sala, sozinha e incólume, o inspetor ergue os olhos em assombro. Trata-se de um momento impagável, e como esse há dezenas. Difícil é escolher o melhor. Quer outro? Então aqui vai: enquanto um algoz faz um lanche numa padaria, Baumont chega por trás do sujeito e mergulha o croissant em seu cappuccino, mordendo em seguida. Sobressaltado, o homem ergue os braços e começa a se desculpar: “Eu não quis bater em sua esposa, é que me pediram.” A resposta vem com um soco potente no nariz, acompanhado de um argumento: “Eu também não quis te bater. Foi minha esposa que pediu.

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Seguindo o padrão dos filmes europeus, aqui temos uma exuberância de mise em scene, os enquadramentos elegantes, mas quando se trata de afundar o pé no acelerador, o filme demonstra extrema habilidade, sem perder a direção momento algum. Prova disso é a sequência de fuga, conduzida de forma crua pelo diretor George Lautner, que nos faz sentir como se estivéssemos realmente na linha de fogo. Em que pese o saudosismo, é impossível não assistir a cena e compará-la com o anêmico cinema de ação atual, contaminado por maneirismos de câmera tremida e floreios de edição que só mascaram ausência de estilo. Tais diretores ignoram que, ao distorcer as imagens e impedir a imersão do espectador nas cenas, acabam por cometer um delito ainda maior, que é o de quebrar a comunhão entre o publico e os personagens, uma vez que é nos momentos de conflito que eles têm nossa completa atenção, e sem isso não há empatia. Consideremos outra sequencia monumental, uma perseguição de carros em plena Champ de Mars, onde o protagonista passa de presa a caçador e empurra o veiculo do oponente escadaria abaixo, com a Torre Eiffel em último plano. O embate frenético confere um ar selvagem à “Cidade da Luz”, tornando o cartão postal ainda mais atraente.

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É divertido ver os franceses saindo de sua finesse habitual e proferir sentenças no mínimo rudes, como o inspetor diante da prostituta que se recusa a cooperar em sua cruzada contra Baumont: “Se você não me ajudar, vai sofrer um acidente. Dentro do elevador, por exemplo. O cabo irá partir e vão achá-la seis andares abaixo, com os saltos altos cravados na garganta…”. O filme ainda nos brinda com um duelo final entre Baumont e o mesmo inspetor casca grossa, emulando o clímax de western spaguetti, e dilatando a tensão em níveis agudos ao inserir um desavisado em cena. O sujeito vai pedir informação (!) aos dois homens postados um diante do outro, e ao tropeçar, sua queda acaba servindo de estopim aos disparos. Essa é a referida cena de abertura dos créditos. Vencedor do duelo, Baumont vira as costas e segue seu caminho. Ele já não parece se divertir tanto assim.

Ícone da nouvelle vague, Jean Paul Belmondo jamais se deixou limitar aos experimentalismos do movimento, aproveitando para demonstrar sua versatilidade em obras de forte apelo popular. Aqui ele tem a atuação mais despojada de sua carreira, e olha que estamos falando de alguém que em matéria de desempenho cool só encontrava rival em Steve McQueen. Inconfundível pela estatura elevada e um rosto anguloso perfeito para cartunistas, o astro francês não é o que se pode chamar de um sujeito “boa pinta”, embora compense a falta de atributos físicos com um tipo de carisma singular, transitando entre a elegância e a vulgaridade. É até crível o fato de as duas mulheres mais belas do filme caírem de amores por ele.

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Uma grande questão a perpassar a obra é porque diabos Beumont arriscou a própria vida para levar a cabo um plano que fora abortado pelos próprios superiores e do qual não lhe traria beneficio algum, sendo que poderia simplesmente pegar sua graciosa esposa ou a amante estatuesca (ou ambas) a tiracolo e sumir do mapa. A exemplo dos samurais clássicos, estaria ele movido por um código de honra, no sentido de terminar o que começou, ou o motivo seria menos nobre, uma simples sanha vingativa? Creio que ambas seriam justificativas demasiado simplistas. É óbvio que a trama se move nos trilhos de uma necessidade dramática, de modo que se não houvesse a tal obsessão do protagonista, não haveria filme. No entanto, sob essa camada se deslinda uma outra, e sem querer emprestar ao filme uma ressonância maior do que lhe é devido, enxergamos na figura do hitman alguém que no curso de seu oficio fora desumanizado a ponto de virar uma bomba relógio pronta para implodir o estado de coisas que o moldara.

O desfecho comprova que, quando isso acontece, é impossível neutralizá-la.

LES TROTTOIRS DE BANGKOK (1984)

bscap0011Então em vez de conferir algum dos mais conhecidos filmes do francês Jean Rollin que eu ainda não vi, resolvi encarar este petardo do sujeito da fase oitentista. Mas até que foi uma boa surpresa! Nessa época o diretor se afastava um bocado dos filmes de horror que o consagrou na década anterior, com as vampiras belas e sexys que povoavam a maioria de suas narrativas, e desbravava novos temas. Além de uns pornozinhos habituais que ajudavam a bancas suas produções mais “sérias”, começou a aparecer na filmografia do Rollin alguns thrillers como LE PAUMÉES DU PETIT MATIN (81), e este LES TROTTOIRS DE BANGKOK, um thriller de ação e espionagem que lembra um bocado alguns trabalhos tardios de Joe D’Amato e Jess Franco.

Aliás, santa trindade: D’Amato, Franco e Rollin. Mas a real é que o tom da trama de BANGKOK é, antes de tudo, Hitchcockiano, com uma personagem inocente sendo perseguida pra todo lado, envolvida num mistério, além de um típico MacGuffin, um cilindro contendo uma perigosa arma química desejado por agentes secretos sem escrúpulos e quadrilhas que pretendem vender o artefato no mercado negro. Ou seja, é o mesmo enredo de quinhentos milhões de filmes de espionagem que o cinema sempre produziu, a diferença é o olhar do Rollin, repleto de toques geniais e que transformam uma história besta como esta aqui em algo bem mais apetitoso.

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BANGKOK começa com a morte do agente secreto Rick, cravado de balas pelo próprio diretor nas ruas da cidade que aparece no título (embora o filme tenha sido rodado na França e todas as cenas em que Bangkok aparece na tela são enxertos de outras produções). Rick estava na cidade com a missão de encontrar a tal arma biológica que todos querem. A última vez que ele foi visto com vida foi na companhia de Eva, uma dançarina de casa noturna que acredita-se ter recebido e escondido o objeto. E a partir daí começa a jornada da pobre moça, que acaba indo parar em Paris, sendo perseguida por todo tipo de pessoas com más intenções sem entender o porquê.

No meio disso tudo, uma galeria de personagens interessantes se apresenta em cena: um clone do Fu Manchu, dançarinas exóticas, belas agentes que não têm receio de tirar a roupa, espiões cascas-grossas e até um cão policial estilo Rin Tin Tin, versão de araque. Eva também é ótima personagem. Creditada apenas como Yoko (a oriental cuja imagem abre o post), é uma péssima atriz, mas tem certo carisma e a fragilidade necessária que o papel exige.

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Com duração que não chega aos 90 minutos, o ritmo frenético com o qual BANGKOK é narrado pode espantar os acostumados pela poética e lentidão dos filmes de horror de Rollin. A exceção são as longas cenas de danças na casa noturna, briga de mulheres na lama e massagens eróticas, todas com várias mulheres gratuitamente nuas e que – pensei que nunca diria isso na vida – quebram o bom ritmo do filme e poderiam ser mais enxutas. Até isso contribui para ser um exemplar bem fora das convenções do Rollin.

Mas nada que atrapalhe o andamento de BANGKOK de maneira tão grave… Mulheres nuas nunca são problemas. Há até alguns momentos específicos que só poderiam ter saído da mente de um diretor como ele (e como o D’Amato/Franco): Eva é amarrada e açoitada sob câmeras de vigilância para o deleite da mente criminosa por trás de sua captura, uma loura cinquentona e robusta que utiliza as imagens para se excitar e abrir as pernas para o seu capanga. Coisa de gênio!

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Vários outros momentos como este tornam BANGKOK um filme assistível  para quem curte uma boa bagaceira – a participação do cão, por exemplo, é nível de um Samuel Fuller ou Howard Hawks – e até delicioso para quem já conhece e admira o trabalho do Rollin e deseja conferir como o sujeito se sai fora da sua zona de conforto. E preparem-se que adentrei 2014 num clima de “Eurotrash” e pretendo compartilhar com vocês algumas experiências. Stay tuned!

ESPECIAL McT #4: A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (The Hunt for Red October, 1990)

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Voltando aos poucos com as atividades por aqui, após uma pausa para descanso e viagens, prosseguimos com a filmografia do John McTiernan pra variar. A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO foi meio injustiçado por minha pessoa durante muito tempo. Uma revisão em 2013 ajustou as coisas. É um filmão! Embora ainda não ache dos melhores trabalhos do diretor, consegue tranquilamente ser um thriller de uma eficiência absurda na construção e condução de sequências de tensão, e isso sem precisar apelar para a carga de ação deflagradora que havia em PREDADOR ou DURO DE MATAR.

É um trabalho, digamos, mais sério e político, se comparado aos outros dois filmes citados do McT, apesar de que já em 1990 o tema “Guerra Fria” estava um bocado defasado. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Tom Clancy, que por sua vez foi inspirado num episódio real ocorrido em 1975, no qual um pequeno navio de guerra soviético foi amotinado e sua tripulação pediu asilo no ocidente.

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No caso do filme (e do livro do Clancy), um moderníssimo submarino russo, chamado de Outubro Vermelho, dirige-se em direção aos Estados Unidos munido com poder de fogo nuclear suficiente para iniciar (e terminar) a terceira guerra mundial num piscar de olhos. O governo soviético alega não ter nada a ver com isso; os americanos não vão esperar o submarino chegar mais perto para perguntar “qualé?”. Nisso, entra em cena o analista da CIA Jack Ryan (Alec Baldwin), que contém informações sobre o comandante do submarino, encarnado pelo Sean Connery, e acredita na possibilidade do sujeito ter desertado e está, na verdade, tentando escapar para os Estados Unidos. Enquanto ninguém sabe exatamente o que se passa, inicia-se a tal caçada ao Outubro Vermelho

Jack Ryan é uma figurinha carimbada na literatura e no cinema. Harrison Ford interpretou duas vezes (JOGOS PATRIÓTICOS e PERIGO REAL E IMEDIATO), Ben Affleck também em A SOMA DE TODOS OS MEDOS, e está para ser lançado JACK RYAN: SHADOW RECRUIT, com Chris Pine no papel (que, aparentemente, parece ser uma bela merda). Mas é em OUTUBRO VERMELHO que o personagem criado por Clancy aparece pela primeira vez na tela grande. É curioso, porque Ryan não é um agente de campo, não é um homem de ação, portanto é bem diferente do tipo de herói que McTiernan havia desenvolvido nos seus trabalhos anteriores no gênero ação, como o Dutch (Schwarzenegger, em PREDADOR) ou McClane (Willis, em DURO DE MATAR). No único tiroteio do filme, Ryan precisa mandar chumbo como um completo principiante, tremendo nas bases, diante da situação de perigo.

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Como disse antes, o filme não apela para sequências de ação. É mais focado na construção atmosférica de tensão, intrigas e, claro, a sensação claustrofóbica de se ambientar uma narrativa quase inteiramente dentro de submarinos. Tudo isso revestido por um thriller político inteligente, bem articulado e cuidadosamente dirigido pelo McTiernan – os combates de submarinos, embora lentos e táticos, são de deixar a mão suando!

Mas o grande destaque de OUTUBRO VERMELHO é o desempenho de Sean Connery no papel do comandante russo. Belíssima atuação, o sujeito constrói uma figura repleta de fraquezas e ambiguidades encobertas pela pompa e imponência de um maioral soviético. Sem sombra de dúvida um dos grandes momentos da carreira de Connery e provavelmente o tour de force de OUTUBRO VERMELHO. Apesar de ter ficado mais famosinho, Jack Ryan acaba por ser um mero coadjuvante por aqui. Fica claro que o filme é um veículo para Connery demonstrar seu talento.  A produção conta ainda com Scott Glenn, Sam Neill, James Earl Jones, Tim Curry, Stellan Skarsgård e vários outros.

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Para finalizar e encher mais um pouco a bola do McTiernan, há uma pequena sacada em OUTUBRO VERMELHO que demonstra porque o sujeito é um dos grandes do cinema americano: o diretor resolve toda a questão do idioma russo, que é transitado para o inglês, num simples movimento de câmera que é de uma genialidade de arrepiar. É logo no início do filme e não vale ficar descrevendo, mas não tem como não perceber ou ficar indiferente quando acontece. É mágico! E são momentos como esse que o cinema guarda seus encantos.

THE BIG SWITCH (1968)

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O primeiro filme dirigido pelo britânico Pete Walker começa com uma negrona biscoituda fazendo um strip tease num clube. Aliás, o que não falta em THE BIG SWITCH, nos seus quase 80 minutos, são mulheres tirando a roupa sem muita dificuldade. Walker é mais conhecido pelos exemplares de horror que realizou nos anos setenta, como FRIGHTMARE e SCHIZO, mas neste início de carreira o seu tema principal eram seios desnudos balançando na tela em thrillers policiais. No caso de THE BIG SWITCH, um playboy londrino chamado John Carter é implicado no assassinato de uma loura que ele queria comer. E por conta disso, acaba se envolvendo com o submundo do crime, sendo chantageado e etc… e a cada situação, dá-lhe mulheres com peitos de fora.

Dizem que Walker começou a escrever o roteiro de THE BIG SWITCH pela manhã e terminou na tarde do mesmo dia. Se é que podemos chamar o que temos aqui de roteiro. As filmagens demoraram menos de uma semana e tudo isso reflete no filme, que é cheio de atuações ruins (Sebastian Breaks que faz o protagonista é um tremendo canastrão), e uma direção desleixada, sem ritmo, com poucos momentos de criatividade. Então, o filme é uma porcaria? Diria que sim, mas é assistível pela quantidade de peitos, é tão curto que não dá tempo de se chatear e vale pela curiosidade de conhecer os primórdios do cinema desse diretor peculiar.

FIREFOX (1982)

Não, não se trata de uma versão cinematográfica do browse de internet, Mozilla Firefox. FIREFOX, do Clint Eastwood, é simplesmente um dos thrillers mais extraordinários que o sujeito já dirigiu, basicamente por causa de uma ideia que beira a genialidade. Clint tem que roubar um avião russo super moderno, cujos comandos de controle devem ser enviado através do pensamento utilizando um capacete especial. Detalhe: o pensamento tem que ser em russo! Isso é fantástico!!! É para esse tipo de coisa que o cinema existe.

De uma forma geral, o filme não chega nem perto de ser uma obra prima ou coisa parecida, embora seja um eficiente thriller de espionagem. Mas a simples ideia do “pensar em russo” é desses detalhes que me causam fascínio extremo.

Clint interpreta um ex-piloto do exército americano que vive recluso no meio do nada, após sofrer alguns traumas durante a guerra do Vietnã, e é novamente recrutado para essa missão super secreta que eu escrevi ali em cima. Outro detalhe, o personagem do Clint sabe russo. E um dos grandes destaques de FIREFOX é poder acompanhar o ator/diretor nesse papel, um piloto que já não é mais tão jovem, resgatado da aposentadoria contra sua vontade para realizar um tipo de serviço que só ele pode fazer. E o Clint está bem à vontade no personagem.

A maior parte do filme é o sujeito se esgueirando pelas ruas de Moscou ou vilarejos na Rússia, usando disfarces diferentes, passaportes falsos, encontrando espiões que lhe ajudam, esse tipo de coisa que o Hitchcock fez muito bem em CORTINA RASGADA. Há momentos que são realmente intrigantes, alguns de prender a respiração, como na cena em que o protagonista precisa matar um agente da KGB num banheiro de metrô. Mas há uma série de trechos em que não acontece muita coisa. FIREFOX acaba sendo muito mais longo do que precisa.

Mas tudo prepara o espectador para o tal roubo do jato, durante o climax final. Quando isso de fato acontece, é um espetáculo, e o problema do ritmo já nem incomoda mais. As cenas do jato com o Clint pilotando com os pensamentos em russo – e uma perseguição que ocorre em pleno ar quando surge um outro super avião querendo derrubá-lo – foram supervisionadas pelo mestre dos efeitos especiais John Dykstra, que já estava na onda das naves espaciais, fazendo o mesmo trabalho em STAR WARS. O resultado aqui é visualmente incrível.

FIREFOX recebeu o título literalmente traduzido no Brasil: RAPOSA DE FOGO. Recomendo para quem curte um thriller de espionagem fora dos padrões.

SOUTHERN COMFORT (1981)

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SOUTHERN COMFORT é sobre um grupo da Guarda Nacional americana que realiza uns treinamentos de localização e navegação pelos pântanos da Louisiana, tentando encontrar um local específico, exercitando a utilização de mapas, etc. A maioria deles está levando o trabalho bem à sério, muito preocupados com as putas que vão comer quando terminar o exercício. Quero dizer, até mesmo as armas que levam em punho estão carregadas com festim. Em quem vão atirar? Estão em solo americano, não existe inimigo nesse treinamento…

Os problemas começam quando se dão conta de que estão completamente perdidos. Onde deveria haver tal objetivo, só tem água e mais água… Decidem então pegar “emprestado” algumas canoas que encontram num acampamento aparentemente abandonado à beira do rio, com alguns animais esfolados no local e tal… Mas deixam um bilhete pra quem quer que fosse. Depois de alguns minutos navegando, o pelotão descobre que está sendo observado à distância por um grupo de cajuns*, os possíveis donos das canoas. Eles gritam para que leiam o bilhete, mas os caipiras não se mexem. Um dos soldados então, decide ser o engraçadinho da turma e começa a atirar na direção dos sujeitos com uma metralhadora cheia de festim. Rá! Muito engraçado mesmo.

* Os Cajuns são os decendentes dos Acadianos, expulsos do Canadá, que se instalaram na Louisiana. [/Wikipédia mode off]

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Só que os cajuns respondem ao fogo, e a munição deles é bem real, para azar dos pobres militares. A primeira bala já acerta a testa do lider do pelotão (Peter Coyote) e, bom, vocês já podem começar a imaginar o que teremos aqui.

Walter Hill é um dos canônes em orquestrar sequências de ação, colocou Charles Bronson pra brigar em gaiolas em seu primeiro filme, realizou uma das obras mais representativas dos anos 70 com THE WARRIORS, fez algumas das perseguições de carros mais impressionantes que eu já vi em THE DRIVER, imitou Sam Peckinpah num western, enfim é um dos grandes mestres do cinema de ação americano e… agora é o diretor de um dos melhores filmes de caipiras psicopatas que existe!

Na época, era clara a intenção de Hill em fazer referência à guerra do Vietnam, mas o filme se manteve atual e até há poucos anos era difícil ver SOUTHERN COMFORT sem pensar no Iraque e outros países do Oriente Médio. Mantém sua análise, só muda o local. Quero dizer, temos aqui um pelotão americano, alguns deles agindo como autênticos imbecis, numa região na qual não entendem porcaria nenhuma de seus habitantes, sua cultura, não falam nem sua língua. Chega sem permissão, se achando os fodões, mas descobre rapidinho que a coisa não é bem assim. O adversário conhece o território, monta armadilhas, sabe onde se esconder e como monitorá-los…

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É o simbolo perfeito para o fracasso inevitável nesse tipo de negócio que o governo americano insiste em fazer de vez em quando ao longo de sua história.  E não importa se estão apenas “pegando emprestado uma canoa”… Com toda essa substância, fica difícil não preferir SOUTHERN COMFORT em relação a outros filmes do gênero “caipiras assassinos“, como DELIVERANCE, de John Boorman, por exemplo, que é mais aclamado (e não tiro os méritos).

Mesmo suprimindo a análise política, sobra ainda um puta thriller de caçada humana (o final, na vila dos cajuns, é de ficar com o coração na boca, a contrução da tensão é absurda), o qual destaca-se desde o roteiro, escrito à seis mãos pelo próprio Walter Hill, Michael Kane e David Giler, a utilização dos cenários naturais dos pântanos da Louisiana, passando pela direção habitualmente magistral de Hill e, principalmente, o elenco com feras do calibre de Powers Boothe, Keith Carradine, Fred Ward, Peter Coyote e especialmente um Brion James tão assustador quanto os piores monstros e psicopatas dos slashers oitentistas.

O ELIMINADOR, aka Hidden Agenda (2001)

Mais um trabalho do Dolph por aqui. Espero que não se importem… E infelizmente, mais um bem fraco. Mas, diferente de AGENTE VERMELHO – assunto do último post, que conseguiu garantir boas risadas apesar dos problemas – O ELIMINADOR é indiscutivelmente ruim e não tem graça alguma. Misteriosamente, o filme possui bastante comentários positivos na rede, algo que me surpreendeu. Ou eu sou burro pra cacete ou tem algo errado com essas pessoas. Mas vamos à trama:

Dolph interpreta um ex-agente especial do governo que criou um programa de proteção à testemunha altamente secreto e seguro. É um sujeito refinado, dono de um restaurante (que serve de fachada) lembrando um pouco ROCKY 6, com o personagem todo amigão indo às mesas bater papo com os clientes. O problema começa quando um assassino profissional, conhecido apenas como “o eliminador”, é o provável responsável por mandar os “protegidos” de Dolph comer capim pela raíz. E o que poderia iniciar a partir daí como um ótimo filme de ação, se transforma numa confusão narrativa de dar pena!

A premissa até que é interessante e poderia render um bom thriller nas mãos de roteiristas menos pretensiosos e um diretor mais competente, que soubesse filmar ação. O ELIMINADOR tenta ser daqueles filmes de conspiração inteligente e hermético, sem ter substância sufiente pra tanto. A trama é simples, mas tratada com uma complexidade narrativa que eu mesmo não fazia idéia do que estava acontecendo em alguns momentos. Fora a quantidade de personagens sem propósito algum para a história que vão surgindo a todo instante, reviravoltas metidas à espertinhas e que vão inchando o filme… e o saco do espectador. Por isso a minha surpresa com o povo elogiando a obra e até mesmo a suposta inteligência do roteiro.

As sequências de ação também não ajudam muito. Apesar de não ser o foco de O ELIMINADOR, as poucas que temos não empolgam, são filmadas sem muita inspiração pelo diretor Marc S. Grenier. A única cena que realmente acontece uma troca de tiros é a do final, dolorosamente chata e clichezona. Dolph protagoniza algumas lutinhas rápidas que são bacanas e é claro que o fator Dolph Lundgren é a única coisa que presta, fazendo uma persona diferente do seu habitual, mas ainda é muito pouco.

No fim das contas, é apenas uma tentativa frustrada do velho Dolph de fazer um thriller sério que, infelizmente, acabou parando nas mãos dos realizadores errados.

THE SHOOTER, aka Hidden Assassin (1995)

Para a “crítica séria”, Ted Kotcheff pode ter perdido o rumo em algum ponto de sua carreira após apontar como cineasta promissor nos anos 60 e 70, tendo realizado a obra prima PELOS CAMINHOS DO INFERNO. Nos anos 80, deu uma sacudida no cinema de ação com o primeiro RAMBO, que destoa totalmente do que o personagem virou nos filmes seguintes. Ainda pretendo escrever sobre a série, mas RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR é um marco no gênero. Gosto bastante das continuações como filmes de ação apenas. Já o primeiro possui envergadura crítica e é sensacional como exemplar do gênero.

Enfim, o último filme feito pra cinema dirigido pelo Kotcheff é este THE SHOOTER, pequena produção protagonizada pelo Dolph Lundgren… como disse no início do texto, para a “crítica séria”, isso aqui é como o fundo do poço para um diretor do calibre do sujeito. Mas para nós, fãs ardorosos do “inocente” cinema de ação de baixo orçamento, um filme do Dolph dirigido por um mestre é como um bife bem suculento acompanhado de uma montanha de batatinhas fritas: não tem como ser ruim!

Escrito por três roteiristas meia bocas, a trama de THE SHOOTER é simples, mas eficaz como thriller um pouco mais sério do que o Dolph costuma fazer. Após o assassinato de um embaixador cubano em território americano, o agente Michael Dane (Dolph) é enviado à Praga com a missão de capturar o principal suspeito pelo ocorrido. Trata-se de uma assassina profissional chamada Simone Rosset, vivido pela belezinha Maruschka Detmers – também lembrada pelo boquete explícito em DIAVOLO IN CORPO, de Marco Bellochio.

O problema é que há muito tempo Rosset não atua como assassina, levando uma vida pacata, cuidando de seu restaurante ao lado de sua companheira. E Dane passa a duvidar que ela tenha realmente agido. E quanto mais o herói cava fundo nas investigações, mais ele se vê submerso numa teia de conspiração extremamente perigosa. Nada muito elaborado como um MISSÃO: IMPOSSÍVEL, do Brian de Palma, que possui orçamento alto e elenco de primeira classe, mas para um B movie de ação, até que a trama surpreende com suas reviravoltas.

O que não é surpresa são as sequências de ação dirigidas por Kotcheff, filmadas com elegancia e sem exageros, na dose certa para um thriller como este, onde o foco não é exatamente as cenas de ação. Mas não deixa de ter momentos onde Dolph encarna o herói brucutu oitentista com uma camisa branca coberta de sangue, como na sequência final em um palácio em Praga. Aliás, a cidade é um excelente cenário, com uma variedade de locações propícias para o tipo de filme que temos aqui. Na verdade, Paris era a primeira escolha, mas as taxas de impostos para a produção na República Tcheca é bem mais em conta.

No entanto, isso não impede de haver uma sequência ótima de perseguição de carros em alta velocidade pelas ruas apertadas que é de tirar o fôlego. Há outra, à pé desta vez, que inicia numa estação e vai parar sobre um trem em movimento; temos Dolph empoleirado no parapeito de um edifício para acertar um atirador de elite posicionado em outro prédio, numa sequência tensa; um tiroteio explosivo quando Dolph resgata a mocinha prestes a ser executada à sangue frio e por aí vai… para um filme mais focado na trama, THE SHOOTER tem ação pra cacete!

Dolph Lundgren, com cabelinho na moda, está ótimo e possui muita química com Maruschka, que por sua vez também tem uma curiosa ligação com sua sócia, levantando a questão da preferência sexual da personagem, algo que torna o desenvolvimento da relação entra ela e Dolph muito mais interessante. Completando o elenco, temos Gavan O’Herlihy e John Ashton.

Graças a competente direção do veterano Ted Kotcheff e uma trama instigante, THE SHOOTER tem seu lugar garantido entre os melhores veículos de ação de Dolph Lundgren nos anos 90. Foi curiosamente lançado aqui no Brasil com o título de DESAFIO FINAL, provavelmente representando o que foi para o velho de guerra, Ted Kotcheff, realizar este seu último trabalho feito pra cinema…

RUN (1991)

 

Alguém se lembra deste aqui? Anda meio esquecido atualmente, mas RUN é um pequeno thriller de ação do início dos anos 90, divertido à beça, que traz Patrick Dempsey como um estudante de direito que faz qualquer coisa pra ganhar uma graninha extra para ajudar a pagar seus estudos. Por isso, aceita logo de cara o serviço de levar um Porsche até outra cidade para entregá-lo ao seu dono. No meio do caminho, o carro apresenta alguns defeitos e é preciso parar na cidade mais próxima para consertá-lo. Tendo algumas horas pra matar, Dempsey descobre um cassino clandestino onde resolve fazer um dinheiro a mais no poker. O problema é que um de seus adversários toma uma antipatia pelo nosso protagonista e resolve arranjar briga e, acidentalmente, escorrega, bate a cabeça e morre. Acontece que o sujeito é filho do chefão da máfia local, que coloca uma recompensa pela cabeça do mancebo. Agora Dempsey está numa grande enrascada, se escondendo de todas as formas possíveis numa cidade estranha, tendo a máfia e alguns policiais corruptos à sua cola! Eita plot danado de bom!

Patrick Dempsey era um desses “astros de sessão da tarde” naquela época, e RUN talvez seja seu trabalho mais diferentão, voltado pra outro público, mas também é um de seus melhores desempenhos! Nunca o considerei um ator virtuoso, mas longe de ser ruim, e aqui até exagera demais em alguns momentos, mas consegue ser convincente na sua situação desesperadora, além de mostrar as mudanças que seu persongem sofre. Do jovem ousado e arrogante ao sujeito cativante que torcemos até o fim! Nada muito profundo ou reflexivo, obviamente, mas quem procura apenas um bom passatempo e ação sem frescuras vai conseguir encontrar algo interessante por aqui. O roteiro cria as situações movimentadas e frenéticas que o filme precisa pra dar certo e o diretor Geoff Burrowes comanda tudo com mão firme, de maneira funcional, dando ao espectador exatamente aquilo que busca.

A cena do estacionamento que culmina com o carro da dupla policial corrupta despencando de uma certa altura é muito bem construida, do mesmo modo que o climax final. Não sei se chega a ser uma pena o Burrowes nunca mais ter dirigido coisa alguma, até porque sua direção não é nada acima do padrão daquela época, embora seja acima da média para o padrão atual, mas enfim, se houvesse garantia de outros filmes no nível de RUN, então com certeza foi uma pena o cara nunca mais ter dirigido!

BAD DAY AT BLACK ROCK (1955)

bad-day-at-black-rock-2Acho que já não deve ser mistério pra ninguém que o gênero ação é o meu predileto, então nada mais justo que conferir de vez em quando as raizes de tudo, não? O problema é que são tantos títulos do cinema físico e de ação clássico que fica difícil escolher por onde começar… que tal então BAD DAY AT BLACK ROCK (adoro o título original), um dos grandes precursores do cinema badass, dirigido pelo casca-grossa John Sturges (FUGINDO DO INFERNO, SETE HOMENS E UM DESTINO) e com um puta elenco formado por vários monstros consagrados do cinema americano?!

Começando pelo protagonista, Spencer Tracy, fazendo um tipo misterioso que chega de trem em uma minúscula cidade no meio do nada. O visual do filme é de encher os olhos desde os primeiros segundos, com um largo CinemaScope sendo preenchido com planos abertos, riqueza de detalhes, formas, cores e segue assim até o fim. A trama se passa nos anos 50 mesmo, mas o local parece que não acompanhou o decorrer do tempo e ficou preso no século anterior, com sua aparência de velho oeste. Há quatro anos o trem não para na estação local, então esta simples chegada do personagem ao local equivale à Copa do Mundo para aqueles habitantes.

Do mesmo modo que o objetivo de Tracy é totalmente desconhecido para os moradores, ao espectador a coisa não muda de figura. A princípio, Tracy parece um detetive da cidade grande, investigando pessoas e locais, todo engomadinho, com chapéu, maleta e… apenas um braço! Aos poucos, percebemos que algo naquele lugar realmente não cheira muito bem, e Robert Ryan logo surge em cena como o cínico dono da cidade e seus capangas, Lee Marvin e Ernest Borgnine, tentam transformar a vida de Tracy num inferno, intimidando o visitante, fazendo perguntas de um jeito não muito agradável sobre as intenções dele no local… obviamente, não gostam da presença dele ali.

E eu já vou soltar logo o maior spoiler de BAD DAY! Não, não estou falando do segredo que aquela pequena cidade esconde. Quero dizer algo que realmente me surpreendeu: o personagem de Spencer Tracy luta karatê! Há uma cena que é o paroxismo do cinema badass, no qual Tracy está tomando qualquer coisa no bar e Borgnine chega para atazanar a sua vida sem ter a mínima idéia que está diante de um especialista em artes marciais maneta… mas quem poderia saber? Tracy lhe aplica vários golpes com uma facilidade de fazer Steven Seagal se morder de inveja!

Apesar disso, o ritmo é bem lento para os padrões do cinema de ação moderno. E não estou criticando o trabalho do Sturges, pelo contrário, acho que o que falta na maioria dos filmes atuais, não só de ação, é justamente um ritmo mais lento, uma narrativa mais elaborada e cadenciada, com diálogos e situações “estáticas” tão tensas e emocionantes quanto explosões e tiroteios frenéticos! Uma das melhores coisas em BAD DAY, por exemplo, é a maneira como Sturges lentamente conduz o mistério da trama e o revela gradativamente. Isso sem contar que a descoberta aborda um assunto que nunca sai de moda.

Não é a toa que o diretor Don Siegel disse que o roteiro de BAD DAY AT BLACK ROCK foi o melhor que ele já leu! O filme consegue ser divertido, cheio de mistério e ação, mas com substância inesperada por trás de tudo. E se você ainda curte karatê com pessoas de apenas um braço, então este filme é pefeito pra você.

CHINA GIRL (1987), de Abel Ferrara

Acabei de ler no blog do amigo Vlademir que o novo filme do Abel Ferrara, NAPOLI NAPOLI NAPOLI, está previsto para ser lançado nos cinemas brasileiros em setembro. É uma notícia e tanto! Curiosamente, assisti ontem ao maravilhoso CHINA GIRL, que nas palavras do meu amigo Daniel, é uma versão hardcore de Romeu & Julieta! A definição é perfeita! Imaginem a peça de Shakespeare sem as situações “mela-cueca” entre os pombinhos apaixonados, focado muito mais no violento conflito entre duas gangues, formada por chineses e italianos, em plenos anos oitenta, que fazem fronteira em bairros novaiorquinos iluminados sob as luzes fluorescentes de neon e musicalmente acompanhados de uma trilha típica daquele período! Um filmaço destruidor! E quando Ferrara resolve acompanhar de perto o romance proibido entre a chinesinha Tye e o italiano Tony, ele transforma a situação na coisa mais linda do mundo! Não é a toa que o diretor já declarou que dentre seus próprios trabalhos, CHINA GIRL seria o seu favorito. A direção é inspiradíssima! Questão de movimentação de câmera, uma mais impressionante que a outra, até chegar num plano final antológico!

No elenco, temos James Russo como irmão mais velho de Tony. O sujeito é simplesmente um dos maiores atores injustiçados do cinema americano. Dono de um talento ímpar e de uma segurança estupenda para encenar situações dramáticas com perfeição, Russo nunca teve o destaque merecido. Basta ver sua atuação em OLHOS DE SERPENTE, também de Ferrara, para entender o que estou falando. David Caruso também marca presença, assim como James Hong e Russell Wong.

ANATOMIA DE UM ASSASSINO (Body Parts, 1991)

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Bastou uma modesta sessão em VHS, quando eu tinha lá os meus nove ou dez anos para carregar algumas imagens de ANATOMIA DE UM ASSASSINO na memória durante um bom tempo da vida. Só que havia um problema nessa história. O filme era desses exemplares que comumente assistimos acidentalmente ainda moleque, sem saber o título, nome dos atores, do diretor, e acabamos esquecendo completamente ou lembrando apenas de imagens desconexas que não formam sequer uma sinopse… Enfim, quando chegou a internet, imdb, baixação de filmes, resolvi tentar reencontrar algumas coisas, mas não consegui lembrar de informações suficientes para encontrar ANATOMIA DE UM ASSASSINO.

Há alguns meses, no entanto, conversando com o Osvaldo Neto sobre um diretor de filmes B (óbvio, já que o Osvaldo é especialista no assunto) que havia feito um filme que ele tinha assistido, COHEN AND TATE, acabei tomando conhecimento do diretor Eric Red. Fui dar uma conferida no imdb, para ver o que o rapaz já tinha feito e pimba! Estava lá BODY PARTS. Só de ver a arte do cartaz e o título, as imagens do filme começaram a rondar a minha cabeça. Depois de ler a sinopse, confirmei que era o filme perdido. Lembro até de comentar com o Osvaldo na nossa conversa que estava atrás daquele filme há anos, mas não lembrava de nada que me ajudasse a encontrá-lo… e o pior é que o enredo tem uma peculiaridade bem característica.

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Depois de um tempinho segurando o filme aqui, resolvi assistir. Claro que não é exatamente a mesma experiência que tive com o olhar da ingenuidade, mas puta merda, juro que vivenciei alguns bons momentos diante dessa simplicidade fílmica, mas de uma grandeza inesperada! Chego a ficar constrangido por gostar tanto de um filme que, aparentemente, não possui nada fora do normal, mas acaba me atingindo de uma maneira notável. Não sei se chega a ser um “guilty pleasure”, porque o filme não é ruim, mas só mesmo um belo filme especial e torto causa esse tipo de reação em mim.

ANATOMIA DE UM ASSASSINO não é uma obra prima, mas é um excelente thriller, possui uma trama urdida com criatividade, uma pitada de ação e ficção científica, além de ser uma esquisita e moderna releitura de Frankenstein. A trama gira em torno de um pacato psicólogo criminal, Bill Chrushank (Jeff Fahey), que após um acidente de carro perde um braço. É preciso aceitar o tom fantástico do enredo que parte do princípio de que um transplante de braço vai substituir perfeitamente o antigo. E é isso que acontece, o protagonista recebe um braço novo que funciona 100 % em poucos meses, através de uma cirurgia experimental de ponta.

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A partir daí, a vida de Bill muda de uma maneira negativa. Sua personalidade gradativamente se torna mais agressivas e estranha. Desconfiando que seu novo membro exerce essa influência sobre o seu comportamento, Bill inicia uma investigação para descobrir de quem era o braço numa jornada sinistra por uma identidade herdada. E ainda acaba entrando em contato com outras pessoas que também receberam partes do mesmo corpo.

Entre suas inúmeras qualidades, Eric Red acerta em cheio ao colocar Fahey como protagonista. O ator, que já esteve em mais de 100 filmes e é bem conhecido pelos apreciadores do cinema de baixo orçamento, tem aqui uma atuação digna de nota. Quem também está ótimo é Brad Douriff, como um pintor medíocre que passa por uma fase inspirada, pintando quadros bizarros e macabros, após receber o outro braço do corpo em questão. A primeira cena dele no filme é antológica!

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O filme não possui muita ação. Temos a cena do acidente, que é um espetáculo. É rápida, visceral e sem frescuras. Há uma sequência envolvendo carros em alta velocidade que é de lascar também. Eric Red preza mais pelo climão de suspense. Red não chega a ser um mestre virtuoso com a câmera, mas ANATOMIA DE UM ASSASSINO pode servir como uma autêntica aula de atmosfera, de montagem clássica e eficiente, para os cineastas da nova geração que acham que fazer suspense é dar sustos e aumentar o volume da trilha sonora.

Recomendo para aqueles que curtem um simples, mas ótimo, suspense à moda antiga, mesmo sabendo que não vão entender porque eu gosto tanto do filme. Não tem problema. Certamente vocês devem ter vários filmes que eu não entendo como alguém pode gostar tanto… O importante é ter e guardar com carinho esses filmes tão especiais pra gente.

TERRITÓRIO INIMIGO (Enemy Territory, 1987)

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Quem se lembra desse clássico dos anos 80? Preciosidade que colecionou bastante poeira nas locadoras nos tempos áureos do VHS e até hoje continua obscuro, TERRITÓRIO INIMIGO é um b movie excelente que segue a mesma linha de um WARRIORS, de Walter Hill, com um grupo de pessoas tentando sobreviver à mercê de gangues sedentas por sangue! Aqui isto acontece quase que literalmente, já que a gangue em questão se autodenomina “The Vampires”.

Na trama, um corretor de seguros precisa recolher a assinatura de uma cliente que vive num condomínio do subúrbio de Nova York. Chegando lá, acaba mexendo com quem não devia e a coisa toma proporções enormes quando acidentalmente um membro da tal gangue dos Vampiros acaba levando um tiro. A partir daqui, é como se o protagonista entrasse num universo paralelo, aprisionado no tal condomínio e dominado por esses seres estranhos e violentos. A ceta altura, o sujeito recebe ajuda de um funcionário da companhia telefônica que estava no prédio, que também passa a ser perseguido. TERRITÓRIO INIMIGO se resume na tentativa dessas duas figuras em conseguir, a qualquer custo, sobreviver e fugir do local cercado pelos Vampires.

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No elenco temos Gary Frank, que permanece no anonimato do grande público mesmo trabalhando no cinema até hoje. Ele interpreta o corretor de seguros que entrou na enrascada; até que trabalha direito e consegue passar o estado de espírito de seu personagem: um desesperado que precisa salvar seu emprego realizando este serviço e se vê, de repente, tendo que lutar e até matar para não acordar com a boca cheia de formiga. É, o filme faz refletir até que ponto seu trabalho vale a pena quando sua própria vida está em jogo. O grande Ray Parker Jr. é o parceiro involuntário que cai de gaiato na mesma enrascada ao tentar ajudar o pobre corretor. Sua atuação não é lá grande coisa e há tempos desistiu da carreira de ator. Em compensação, para quem não sabe, o sujeito é o ótimo compositor criador do tema de OS CAÇA FANTASMAS. TERRITÓRIO INIMIGO  ainda conta com o grande Tony Todd, como o líder dos Vampiros, Stacey Dash e Frances Foster. A grande surpresa do filme é o Jan-Michael Vincent interpretando um veterano inválido do Vietnã, armado até os dentes, fazendo discursos impagáveis para os protagonistas. Os seus momentos são dignos de antologia e já valeriam o filme inteiro!

Enemy Territory (1987) Directed by Peter Manoogian Shown: Jan-Michael Vincent

A direção é por conta de Peter Manoogian, “capacho” do produtor Charles Band, que produziu todos os filmes do diretor, inclusive este aqui. O trabalho de mise en scène é interessante para o tipo de thriller que temos aqui e convence tranquilamente o espectador que espera apenas 90 minutos de pura diversão. TERRITÓRIO INIMIGO cumpre muito bem esta tarefa com atmosfera densa em cenários apertados, diálogos típicos e muita ação! Yeah!

GIALLO (2009)

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Se fosse realizado nos anos 70, GIALLO não teria nada de especial, seria apenas um bom suspense policial em meio às tantas obras-primas que o cinema italiano apresentou no período. Mas no contexto atual, o novo filme de Dario Argento é tudo aquilo que se espera da discreta proposta de retornar às origens de um gênero estuprado por jovens cineastas – americanos, na grande maioria – e que atualmente vem tentando se revitalizar com alguns bons exemplos aqui e ali. O filme continua não tendo muito de original, mas Argento consegue provar que é possível fazer um excelente trabalho, à moda antiga, sem a frescurada de hoje, montagens espertinhas ou efeitos especiais em CGI (como o próprio Argento havia errado a mão em A MÃE DAS LÁGRIMAS).

Apesar do nome, GIALLO não possui os elementos necessários para fazer parte do subgênero que o diretor ajudou a consolidar na Itália nos anos 70 e 80. E qualquer um com o mínimo de desconfiança sabe que é praticamente impossível fazer um legítimo giallo nos dias de hoje. Mas nem era essa a pretensão de Argento. Ele simplesmente dirige uma trama policial onde temos Adrien Brody encarnando um detetive a procura de um serial killer que sequestra belas mulheres para desforrar seus traumas em cima delas. O “amarelo” do título (que em italiano é giallo), se deve a uma peculiaridade do tal bandido. No elenco, ainda temos Emmanuelle Seigner vivendo a irmã de uma das vítimas e que resolve se meter no caso…

O filme serve também para provar que Argento permanece como um dos grandes nomes do horror e um artista único na condução e no controle de todos os elementos que tem em mãos, como a estética das cores, a movimentação da câmera desvencilhada, a mise en scène, a violência gráfica, com direito à baldes de sangue, como nos velhos tempos de TENEBRE e PROFONDO ROSSO. O conteúdo pode ser simples (embora o roteiro tenha boas sacadas com o passado do personagem de Brody), mas na forma Argento continua genial. Cada detalhe de cena, planos memoráveis (como a do final quando Brody se afasta do local do crime), a fotografia, tudo é valorizado ao máximo para trazer um novo frescor ao gênero e colocar o nome de Dario Argento de volta ao panteão, de onde nunca deveria ter saído. Uma pena que a distribuidora daqui fez o favor de nos poupar de ir ao cinema assistir a esta belíssima obra na tela grande.

ALGUÉM ATRÁS DA PORTA (Someone Behind the Door, 1971)

Assisti a vários filmes durante o feriadão (o meu feriado foi mais prolongado, começou na quinta passada e só hoje voltei a trabalhar), mas dentre os vistos, o que mais me impressionou foi este suspense psicológico, que eu achei num sebo em BH por 10 mangos, no qual temos Charles Bronson dividindo a tela com Anthony Perkins e Jill Ireland (na época, esposa do Bronson). Na verdade, o protagonista de ALGUÉM ATRÁS DA PORTA é Perkins, que interpreta um médico que resolve levar um paciente amnésico (Bronson) para sua casa, isolada nas montanhas de algum lugar litorâneo da Inglaterra, para lhe fazer uma terapia mais intensiva.

Mas o andamento da estória nunca deixa muito claro quais são as verdadeiras intenções do médico, inclusive, a principio, eu cheguei a pensar que o personagem de Perkins fosse homossexual (e era, na vida real), mas logo o próprio enredo descarta essa possibilidade mostrando a esposa do sujeito (Ireland) que se prepara para sair em uma viagem habitual. Então os planos são outros, e a coisa é intrigante, isso eu garanto. Mas não digo mais nada para não estragar a surpresa.

O diretor húngaro Nicolas Gessner mantém um suspense legal até determinado ponto, quando finalmente a motivação do protagonista começa a clarear-se. Nada que possua uma originalidade estupenda no objetivo do médico, e que já foi abordada milhares de vezes no cinema sob a batuta da busca do “crime perfeito”, mas compensa tranquilamente toda a ambiguidade da trama, principalmente quando temos dois grandes atores contracenando com uma firmeza interessante.

Perkins está estranho e ótimo como sempre, mas a grande maioria vai se surpreender é com a atuação do velho Bronson, em plena fase européia (o filme é uma produção francesa), numa performance de verdade, convencendo como um homem que sofre de amnésia. É um filme perfeito para calar a boca de qualquer um que só viu as tralhas da Cannon que o Bronson fez nos anos 80 e pensa que ele só fez aquele tipo de filme / personagem (e que eu também adoro, diga-se de passagem, por pior que sejam).

Outros filmes que vi no feriado incluem A ILHA DOS HOMENS PEIXES, do Sergio Martino; RATOS: A NOITE DO TERROR, do Bruno Mattei; INFERNO CARNAL, do Mojica e uma revisão de THE TOXIC AVENGER, do Lloyd Kauffman.

SÍNDROME DE CAIM (Raising Cain, 1992), de Brian De Palma

Ainda não conferi A FOGUEIRA DAS VAIDADES, filme que todo mundo já está careca de saber é um dos grandes fracassos do diretor (vocês que já viram, o que acham?) Outro que não foi muito bem de bilheteria na época é PECADOS DE GUERRA, que muitos consideram uma de suas obras primas, embora eu também não tenha visto. Mas fique tranqüilo, caro leitor, são poucos os filmes obrigatórios que eu tenho de ver do Brian De Palma. Além de PECADOS, ainda faltam A FÚRIA, O FANTASMA DO PARAÍSO e MURDER À LA MOD (e FOGUEIRA, mas este não é obrigatório, eu suponho). O resto eu vi…

Mas enfim, SÍNDROME DE CAIM, feito logo após o fracasso de FOGUEIRA é o retorno do cineasta ao thriller hitchcockiano, gênero que o consagrou e que fez a alegria dos fãs em filmes como VESTIDA PARA MATAR e UM TIRO NA NOITE. Ainda assim, SINDROME DE CAIM chegou a dividir bastante as opiniões. Já vi muito apreciador do cinema do cara dizer que detesta o filme, outros dizendo que adoram. Eu fico do lado dos que adoram. Não é dos melhores filmes do De Palma, mas não deixa de ser uma pequena demonstração da maestria do diretor, que ainda hoje é um dos mais virtuosos do cinema.

Talvez o ponto que possa incomodar algumas pessoas seja o enredo e a simplicidade da trama, algo que De Palma realmente parece tratar com uma certa irrelevância. Na verdade a trama principal é irrelevante e só serve pra justificar duas coisas: as elegantes piruetas estilísticas e manipulações temporais que o diretor realiza – e que é habitual em seu cinema – e dá ao filme momentos bem agradáveis (algumas seqüências aqui estão entre as melhores que o De Palma já filmou em sua carreira, como o final sensacional no motel). A outra é transformar SINDROME DE CAIM no filme definitivo sobre transtorno dissociativo de personalidade, ou múltiplas personalidades.

John Lithgow, que já havia trabalhado com o De Palma antes, faz o papel do coitado que sofre desse mal e causa sérios transtornos à sua mulher e filha. Até vira caso de policia! Claro que a trama é bem mais séria e envolve assassinatos, seqüestros de crianças e etc. O fato é que Lithgow está perfeito e consegue atingir grandes resultados em sua atuação definindo de forma expressiva cada personalidade tomada por seu personagem. Ele está genial na cena em que é submetido a hipnose por uma doutora. Merecia um Oscar! Sério. O elenco ainda possui Lolita Davidovich, Steven Bauer, Frances Sternhagen, Tom Bower e Gregg Henry.

O entrecho também faz alusões a outros filmes, talvez fosse bem definido como uma mistura de PEEPING TOM, do Michel Powell e PSICOSE, do Hitchcock. No final temos até uma referencia ao VESTIDA PARA MATAR com o personagem do Lithgow vestido com certas semelhança ao Michael Caine do outro filme. Quem viu sabe do que estou falando. Mas nisso tudo, o que mais conta é a direção espetacular do De Palma que cria momentos impressionantes, como o plano seqüência da delegacia que começa no terceiro andar, acompanha um grupo de personagens em escadas, elevador até terminar num close da defunta com uma expressão muito bizarra. E ainda temos o final inacreditável que eu citei ali em cima.

Sem dúvida alguma é uma grande filme, cinematograficamente poderoso e altamente recomendado, principalmente a quem já viu e não gostou, porque SÍNDROME DE CAIM não são só belos e estéreis movimentos de cameras; é toda a criação do universo de um gênio do cinema.

FIGHT FOR YOUR LIFE (1977)

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A imagem acima já dá uma noção do grau de insanidade dos realizadores de FIGHT FOR YOUR LIFE, um verdadeiro petardo da era dos cinemas grindhouse. Subversivo ao extremo e repugnante até o talo, é filme feito para provocar o espectador e que rendeu um lugar na famigerada lista dos vídeo nasties, aqueles exemplares que foram censurados, mutilados e/ou banidos de alguns países na era das video-locadoras. 

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Basicamente, a história de FIGHT FOR YOUR LIFE segue um trio de condenados que, logo no início, consegue escapar do ônibus de transporte da prisão, troca tiro com a polícia e foge no carro de um cafetão. O bando é liderado por Jessie (William Sanderson, de BLADE RUNNER, doentio, depravado num desempenho perfeito) e conta com Chino, um mexicano, e Ling, um asiático como ajudantes. Atravessando em fuga uma cidadezinha aos arredores de Nova York, acabam numa casa onde mantém uma família de negros como reféns! É um filme muito democrático e multi-racial, como podem notar…

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É neste ambiente que grande parte da coisa se desenrola. Toma uma forma bruta, com estrutura de home invasion movie, à partir da direção crua e realista de Robert A. Endelson, que explora o roteiro de Straw Weisman sem piedade. Apesar da curta duração, FIGHT FOR YOUR LIFE é carregado de situações e temas ofensivos como racismo, religião, estupro e violência desenfreada e sem sentido. O que mais surpreende, no entanto, é o incrível desempenho do elenco submetido a essas situações de extremo conflito psicológico e agressões físicas.

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Obviamente, percebe-se que FIGHT FOR YOUR LIFE não é pra qualquer tipo de público, especialmente o mais fresquinho, acostumado com os enlatados politicamente corretos das salas de Cinemark. Além do mais, o filme possui seu lado caseiro, algumas encenações são toscas, a parte técnica fica a desejar em alguns momentos por conta do baixo orçamento, acaba por incomodar esse espectador mais “exigente”. Mas o que é falha para alguns é charme para outros. Os fãs de um bom exploitation vão adorar.

NAKED OBSESSION (1991), de Dan Golden

Frank (Willian Katt) é um sujeito pacato, vivendo sua vida quadrada enquadrada pela mulher e pelo trabalho: um político prestes a se candidatar à prefeitura da cidade onde mora. Mas em uma bela noite, sua vida se transforma num inferno disfarçado de paraíso após conhecer o misterioso morador de rua Sam Silver (Rick Dean) e ficar obcecado pela stripper Lynne (Maria Ford) que leva o pobre Frank a um perigoso jogo de traição, assassinatos e a uma trama de suspense que até o mestre Alfred Hitchcock se surpreenderia.

Naked Obsession é o primeiro trabalho de Dan Golden atrás das câmeras, embora seja velho de guerra colaborador de grandes nomes do cinema de baixo orçamento americano, como Jim Wynorski. E até que se sai muito bem como um contador de história bem econômico e objetivo, trabalhando os elementos do thriller com precisão e tendo em mãos um material criativo (escrito por ele mesmo e Robert Dodson), cuja produção e suas baixas limitações permitem o charme que só este tipo peculiar de filme possui.

O roteiro é excelente, intrigante para quem se propor mergulhar de cabeça na história, rico em metalinguagem, quase uma versão de Fausto do cinema B (como disse o Osvaldo Neto quando me indicou o filme). Vale ressaltar a participação das figuras ilustres que preenchem o filme como a belíssima Maria Ford, demonstrando que não é necessário ser uma atriz muito expressiva quando não precisa de figurino algum, e claro, Rick Dean, como um bizarro e enigmático “anjo da guarda” que surge para apresentar um lado da vida que Frank ainda não havia experimentado.

EMANUELLE IN AMERICA (1977)

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Quando se fala em Emanuelle, muita gente vai se lembrar da famosa série erótica na qual a personagem infestava as mentes dos pré-adolescentes que ficavam até altas horas das madrugadas de sábado para assistir o Cine Privé da Band. Bons tempos aqueles, mas não é exatamente desta Emanuelle que hoje vamos falar, mas sim da misteriosa e sensual Black Emanuelle interpretada pela musa Laura Gemser, que encarnou a personagem pela primeira vez no filme EMANUELLE NERA, de Bitto Albertini.

Com o passar dos anos, vários diretores utilizaram a personagem em seus filmes, e sempre com Gemser interpretando seu papel. Laura Gemser tinha uma beleza exótica magnífica e explodia em sensualidade. Bastava tirar a roupa e dizer as falas que os enquadramentos dos planos e uma ótima fotografia ficavam a cargo de um resultado satisfatório. O nosso famigerado Joe D’Amato que o diga, foi um desses diretores que trabalhou com a personagem em diversos filmes, inclusive tomou Laura Gemser como musa nos mais variados tipos de produção.

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Foi aí que surgiu EMANUELLE IN AMERICAum dos melhores exemplos desta parceria entre D’Amato e Gemser. A história gira em torno de uma repórter que investiga o submundo do sexo entre milionários excêntricos e acaba se metendo no meio do perigoso universo dos snuff movies (filmes que mostram assassinatos reais). A trama se passa com certa lentidão, onde temos muitas cenas de nudez e sexo entre as investigações. Vale lembrar que algumas cenas são de sexo explícito (sem a Gemser, óbvio), detalhe que faz parte de uma das principais características de D’Amato, sempre em busca do choque visual, misturando tais cenas com tramas de suspense ou terror, como em PORNO HOLOCAUST e EROTIC NIGHT OF LIVING DEADS, por exemplo.

99cbf77e73f1e4969c57302aec8ba3f0D’Amato chega a filmar uma mulher excitando um cavalo em uma reuniãozinha dos milionários (da mesma forma que fez em sua versão de CALÍGULA). Embora não mostre o ato sexual da mulher x cavalo, é um dos momentos mais impressionantes do filme. Junto, é claro, com as famosas cenas de snuff movie, que são de um realismo extraordinário e causou muita polêmica na época. Foi quando surgiu a lendária história que D’Amato havia conseguido cenas de Snuff com a máfia russa! Na verdade, foram filmadas pelo próprio D’Amato sob a batuta do trabalho do grande mestre dos efeitos especiais Gianetto de Rossi. Mas só de ter criado esses boatos o filme já merece o status de genial!

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FIRST SNOW (2006)

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Se estão pensando que só vou falar de tralha velha por aqui estão enganados. FIRST SNOW é um exemplo disto. O roteirista de HOMEM DE FERRO e FILHOS DA ESPERANÇA, Mark Fergus, ataca na direção com este Neo-noir de 2006 que nem se atreveu a passar nos cinemas brasileiros, indo mofar direto nas prateleiras das locadoras sem muita publicidade. Injustamente, porque é um bom filme com o elenco encabeçado pelo britânico Guy Pearce e ótimos coadjuvantes, como J. K. Simmons (o J.J.Jameson de HOMEM-ARANHA) e William Fichtner, que teve uma pequena participação no novo Batman como o banqueiro que reage contra o assalto no início do filme.

Quando se fala em Neo-noir, já vem na mente aqueles filmes policiais que remetem ao gênero dos anos 40 e 50, e o pôster de First Snow acentua ainda mais essa noção. Mas o filme segue outro caminho. A história é um quebra-cabeça que vai se juntando aos poucos, formando um drama com elementos de thriller cujo protagonista, com passado ambíguo, revela-se um autentico personagem do noir.

Jimmy Starks (Pearce) é um homem de negócios que acaba à beira da estrada com o carro quebrado. Sem muita coisa pra fazer enquanto espera o conserto do carro, decide deixar que um médium (Simmons) leia sua mão. Descobre que seu fim pode estar mais próximo que espera. A partir daí, o roteiro passeia em questões como morte, paranoia e redenção.

FIRST SNOW possui um andamento lento e não traz nenhuma novidade. Mas a direção é correta, segura e Guy Pearce está inspirado, embora não seja um ator que atraia muito público, mas seu trabalho aqui merece o destaque que o filme, infelizmente, não teve.