MACHINE GUN KELLY (1958)

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Já devo ter comentado sobre o Roger Corman num dos primeiros posts do blog, mas vale a pena relembrar. Corman foi um dos grandes mestres do cinema B americano, prolífico produtor e diretor de cinema fantástico, western, policial e exploitation de todas as espécies, além de ter revelado vários cineasta como Scorsese, Coppola, Monte Hellman, Joe Dante, e uma lista infindável. Uma de suas principais características é a velocidade na qual realiza suas produções. MACHINE GUN KELLY, por exemplo, teve apenas oito dias de filmagens e faz parte de uma série de gangster movies que realizou na época.

O filme é livremente inspirado na vida de George Kelly – conhecido como Machine Gun Kelly pelo fetiche que tem por sua metralhadora – um perigoso bandido da década de 30, que foi impulsionado pela mulher ambiciosa a trilhar o caminho do crime. Quem encarna o sujeito é ninguém menos que Charles Bronson; e quem pensa que ele era um iniciante naquela época está enganado. MACHINE GUN KELLY era seu vigésimo segundo filme (embora tenha sido seu primeiro com maior importância) e sua interpretação está entre as melhores que o ator já compôs, principalmente no que se refere aos detalhes da construção de personagem, como a fobia pela morte, por exemplo.

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A direção de Corman é inspirada. Com uma simples cena ele resume toda a essência do personagem de Bronson, aquela em que o ator brinca de bater palma com a criança sequestrada. Além disso, a criatividade do diretor para driblar o baixo orçamento é absurda, como no primeiro assalto logo no início, onde mostra apenas a sombra do policial que é baleado pela metralhadora de Kelly numa solução bem simples e muito funcional; isso sem contar os diálogos muito bem colocados no roteiro de R. Wright Campbell (roteirista de várias produções do Corman e de HELLS ANGELS ON WHEELS, de Richard Rush).

Mas MACHINE GUN KELLY possui algumas irregularidades narrativas que decorrem por causa da pressa da produção, do baixo orçamento, o que afeta o ritmo. O filme começa muito bem, mas tem suas decaídas, não preza muito por cenas de ação e tudo isso não permite que o filme saia do limbo preconceituoso que a crítica “séria” tem com os filmes B, pois na verdade nenhum destes detalhes atrapalha a diversão. O fato é que é um ótimo filme e a forma como Corman trata psicologicamente seu personagem é digna de um cinema inventivo muito além de seu tempo.

WISE GUYS (1986)

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Para quem está acostumado com os filmes de Brian De Palma, sempre carregados de tramas violentas, homenagens à Hitchcock e suspenses elaborados por uma câmera virtuosa, vai se surpreender com o diretor no comando de WISE GUYS. Uma comédia leve e divertida que o diretor aceitou fazer a convite do produtor Aaron Russo, após realizar DUBLÊ DE CORPO (84). O início da carreira de De Palma é marcada por algumas comédias que satirizavam politicamente o modo de vida americano da época, como GREETINGS (68) e HI, MOM! (70), ambos estrelados por um jovem Robert de Niro antes de iniciar sua parceria com o diretor Martin Scorsese. Ou seja, De Palma já havia provado antes o talento do ator.

Mas vamos ao WISE GUYS cuja história gira em torno de dois membros atrapalhados da máfia de New Jersey, interpretados por Danny De Vito e Joe Piscopo. O filme remete aos trabalhos do Scorsese mostrando a uma máfia de baixa categoria e sem o glamour de Tony Montana do filme SCARFACE (83), que De Palma havia dirigido alguns anos antes. Os dois sujeitos, na verdade, recebem sempre os trabalhos mais pífios e são ridicularizados pelos outros membros. Ao receberem a “grande missão” de apostarem num cavalo de corrida, acabam colocando o dinheiro em outro cavalo, achando que o favorito de seu chefe perderia, o que não acontece. Os dois são marcados como traidores, mas ao invés de matá-los subitamente, Tony Castelo (Dan Hedaya), o chefão da parada, coloca-os com a missão de matar um ao outro.

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WISE GUYS é um ótimo exercício de direção para De Palma que, apesar de não realizar nenhuma acrobacia com sua câmera, deixa seus atores brilharem livremente no gênero que já estão à vontade. Danny De Vito surpreende com um dos papéis mais engraçados de sua carreira e Joe Piscopo demonstra toda sua expressividade cômica. O elenco ainda é formado com Frank Vincent, Harvey Keitel e Lou Albano (talvez o personagem mais divertido). O filme não foi muito bem de bilheteria nos Estados Unidos e acabou sendo esquecido automaticamente, infelizmente. Mas realmente não é nenhuma maravilha. Algumas situações do roteiro poderiam ser melhor exploradas e o final é um tanto forçado e preguiçoso.

No Brasil recebeu o título cretino de QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE, o que contribuiu ainda mais para o esquecimento por aqui. Além disso, o estúdio resolveu meter o dedo no material final contra a vontade de De Palma. Mas nada que estrague a diversão, principalmente nos dois primeiros atos, quando a história é conduzida de maneira simples com ótimos momentos, como a cena em que De Vito recebe a ordem de ligar o carro de seu chefe, uma aula de montagem e tensão cômica. Ou o assassinato na igreja, praticamente uma mistura genial do pastelão com o rigor intrigante do suspense de De Palma.