LOBO SOLITÁRIO – PARAÍSO BRANCO NO INFERNO (1974)

O capítulo final da série Lone Wolf and Cub. No fim de 1973, depois de cinco filmes, o material do mangá Lone Wolf and Cub, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, já estava praticamente esgotado e o grande arquiteto visual da série, o diretor Kenji Misumi, sentia que a série já havia dito tudo o que tinha a dizer e recusou participar de mais um capítulo. Mas o astro da série, e agora também produtor, Tomisaburo Wakayama não queria parar. Há quem diga que parte dessa obstinação em continuar foi por ter ficado decepcionado por não conseguir o papel principal na série de TV de Lone Wolf and Cub (Kinnosuke Nakamura acabou fazendo o personagem), mas, com financiamento suficiente para um sexto filme, decidiu apostar alto e realizar o exemplar mais estranho e exagerado que sempre sonhou. Chamou Yoshiyuki Kuroda, conhecido por seus filmes de fantasia e horror com yokais, para dirigir e, realmente, a série termina em grande estilo.

Diferente dos anteriores, LOBO SOLITÁRIO – PARAÍSO BRANCO NO INFERNO (Lone Wolf and Cub: White Heaven in Hell, 1974) abandona a estrutura episódica e se concentra diretamente no acerto de contas entre Ogami Ittō e o clã Yagyū. Retsudō Yagyū surge aqui como uma figura consumida pela derrota. Depois de perder seus filhos, pressionado pelo xogunato, ele já não luta apenas por poder, mas pelo que resta de sua honra. E as tentativas de eliminar Ogami Ittō se tornam cada vez mais desesperadas. Primeiro aposta na própria filha, Kaori, uma assassina letal, que falha e paga com a vida. Depois, revela Hyoei, um filho ilegítimo, criado pelo clã Tsuchigumo, um grupo marginal, associado a práticas quase demoníacas. É aqui que as coisas ficam realmente bizarras, com os guerreiros Tsuchigumo, enterrados vivos e trazidos de volta como entidades que emergem da terra, transformam o confronto numa espécie de pesadelo folclórico.

Se ao longo da série Ittō já era tratado como uma figura quase sobrenatural, um “demônio” caminhando entre os vivos, aqui o mundo finalmente parece responder à altura, produzindo adversários que escapam da lógica humana. O fato desses indivíduos serem capazes de se locomover e surgir sob o solo e espalhar terror ao massacrar quem quer esteja em seus caminhos, faz com que Itto e seu filho encararem não apenas o inimigo mais estranho da saga, mas a necessidade de reinventar sua forma de lutar. A solução encontrada por Ittō é tão engenhosa quanto absurda, mas coerente com o espírito da série. Ele adapta o carrinho de Daigorō com esquis e parte para o norte, para um território coberto de neve onde seus inimigos perdem vantagem. Aparentemente escavar neve é bem mais difícil do que atravessar o solo do Japão central, e os inimigos, semi-congelados, ficam lentos o suficiente para que Itto, com a ajuda mortal de Daigoro em seu trenó assassino, consiga derrotá-los.

O desesperado Lorde Retsudō Yagyū segue Itto até o norte com todos os seus guerreiros e ninjas restantes, agora equipados com esquis e trenós, e o confronto final nas encostas geladas é o ápice dessa escalada. Filmado ao longo de semanas, o embate reúne tudo o que a série construiu, multidões de inimigos, coreografias elaboradas, sangue tingindo a neve em contraste violento e expressionista. Um final que faz jus ao percurso. Ogami Ittō chega ao último estágio de sua jornada e não há mais nada a provar, nenhum caminho novo a se abrir. Só resta atravessar o inferno branco até o fim.

E é o fim por aqui também da maratona do Lobo Solitário.

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