ALDRICH – PARTE 4: 1967– 1970

OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 1967)
Foi bom rever depois de tantos anos, sobretudo nesse contexto de maratona do Aldrich. Não é a obra-prima que eu lembrava, é um filme bem falho – em ritmo, tom em alguns momentos, decupagem – mas não dá pra deixar de citá-lo como o filme por excelência do subgênero Men on a Mission na Segunda Guerra, com seu elenco de machões fodões dos anos 60, que obviamente tem seu valor como entretenimento. E até por isso é bem provável que os críticos americanos na época não tenham entendido muito a abordagem de Aldrich e rotularam o filme como fascista, excessivamente violento, cínico. Ao contrário de ATTACK!, que é mais austero, OS DOZE CONDENADOS nunca esconde seu status de entretenimento espetacular.

Mas há muito a se pensar aqui, o filme apresenta a ideia de que a guerra não é nobre, é suja. E os motivos podem não parecer mais tão puros e honrados como eram antes. Claro que pelo tom, pela ação e atos de heroísmo, os sacrifícios dos personagens, pode-se passar batido o teor anti-guerra. Por outro lado, a atitude anti-autoritária e anti-militar exibida, uma história de criminosos condenados (que é algo tão aldrichiano) forçados a realizar um ataque contra o alto comando alemão não esconde suas reais intenções, especialmente como alegoria do Vietnam…

No mais, as atuações são notáveis e o caráter não convencional dos personagens lhes confere um carisma sem precedentes para a época, estabelecendo um novo tipo de herói, com o John Cassavetes em destaque como um rebelde individualista; Jim Brown como um soldado negro em busca de respeito – e seu ato final cheio de simbolismo; e, é claro, Charles Bronson e Lee Marvin, dois dos maiores atores de todos os tempos dividindo a tela, impecáveis.

A LENDA DE LYLAH CLARE (The Legend of Lylah Clare, 1968)
Um diretor de cinema arrogante e autoritário (Peter Finch) planeja filmar uma cinebiografia de uma estrela de Hollywood renomada (Kim Novak), mas que havia falecido uns anos antes. E contrata uma atriz desconhecida (também Kim Novak), que é sósia da personagem, para interpretar o papel principal.

Mais uma fábula ácida de Aldrich sobre Hollywood, só que agora me parece mais direcionado ao contexto do studio system daquele período, no fim dos anos 60, com todas as mudanças que estavam acontecendo no surgimento da Nova Hollywood… Só que o olhar melancólico e melodramático para os indivíduos que habitam esse universo aqui não chega a ser tão bom quanto THE BIG KNIFE. Sequer chega ao nível do camp divertido… É um dos filmes do Aldrich que menos gostei de descobrir nessa peregrinação. Até curto o Peter Finch e Kim Novak aqui, mas o filme se arrasta com longas sequências de conversas monótonas com ausência de qualquer coisa remotamente interessante acontecendo na tela na maior parte do tempo, com raras exceções.

Pelo menos tem um dos finais mais inesperados, absurdos, originais, ousados e geniais da história do cinema americano! Sério, não vou contar o que acontece, é preciso ver para crer…

TRIÂNGULO FEMININO (The Killing of Sister George, 1968)
Com o sucesso de OS DOZE CONDENADOS, Aldrich comprou seu próprio estúdio e embarcou num breve período independente, cujos dois primeiros filmes foram sérias apostas artísticas. O primeiro foi o filme acima, que não curto muito. E o outro foi este aqui, que é melhor, aborda questões mais ousadas, notório pela forma como trata lesbianismo, incluindo uma sequência perto do final que deve ter escandalizado os puritanos da época… Não à toa, foi um dos primeiros filmes a receber a classificação X sob o novo código. Antes de X se tornar sinônimo de pornografia. A trama é sobre uma atriz de novela na Inglaterra (Beryl Reid), cujo mundo começa a desmoronar quando teme que seu personagem será retirado da série, o que abala sobretudo o relacionamento com Childie (Susannah York), sua companheira bem mais jovem. Enfim, ainda não acho que Aldrich esteja na sua melhor forma como narrador nesses dois filmes pós-DOZE CONDENADOS. O sujeito já foi mais vistoso com a câmera e por aqui é tudo muito teatral (é preciso destacar pelo menos que os atores estão ótimos) e um bocado monótono, mas sem dúvida não dá pra negar que o homem continuava a ser um dos diretores mais provocadores e subversivos do cinema americano daquele período.

ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 1970)
OS DOZE CONDENADOS é um clássico absoluto do Aldrich, um de seus trabalhos mais famosos, além de ter um dos elencos mais fodas da história. Mas dentre seus men on a mission, meu favorito é este menos conhecido ASSIM NASCEM OS HERÓIS. Até tem algumas semelhanças com OS DOZE CONDENADOS, com um pelotão formado para uma missão suicida durante a segunda guerra, só que aqui a trama se passa numa ilha dominada por japoneses.

O negócio é que tudo é mais bem resolvido, mais direto, mais cínico, violento e até mais divertido que o filme de 67. Há uma situação tensa que se estabelece a partir da metade que é de tirar o fôlego, com os soldados em fuga e se escondendo na selva, e os japoneses na cola, um drama de sobrevivência conduzido com habilidade pelo Aldrich. Cliff Robertson tá longe de ser um Lee Marvin ou Charles Bronson, mas o filme compensa com quem realmente rouba o filme pra si, que é o grande Michael Caine, fazendo uma figura moralmente ambígua e que é também um dos personagens mais fascinantes da filmografia do Aldrich.

ALDRICH – PARTE 3: 1961 – 1965

O ÚLTIMO PÔR DO SOL (The Last Sunset, 1961)
Talvez seja o primeiro (e único?) filme hawksiano do Aldrich. Temos um grande rebanho sendo transportado, dois homens divididos pela mesma mulher… Só faltou o companheirismo masculino, que aqui dá lugar às figuras habituais de Aldrich, homens incapazes de conviverem no mesmo espaço por muito tempo e cuja sobrevivência depende da morte do outro. É também um misto de western com tragédia grega: o enredo é simples, as motivações humanas básicas, Kirk Douglas é o pistoleiro solitário numa jornada pela mulher que amou em outros tempos, espiritualmente atormentado, que se veste de preto e filosofa poeticamente sobre a vida. O filme introduz, possivelmente pela primeira vez em um faroeste, a sugestão de incesto, com a culpa resultante levando a algo que é virtualmente um suicídio. O roteiro de Dalton Trumbo é bom, pena que é dirigido de maneira um tanto pesada pelo Aldrich, que tenta voltar às raízes depois dos fracassos que teve na Europa. Mas O ÚLTIMO PÔR DO SOL não deixa de ser bacana, tem uma série de momentos excelentes, grandes atuações de Hudson, Dorothy Malone, Joseph Cotten e Carol Lynley… Mas obviamente que o grande destaque é Kirk Douglas, que canta Cucurrucucú Paloma em espanhol, que é desses momentos que torna um filme menor como este aqui em algo sublime.

SODOMA E GOMORRA (Sodom and Gomorrah, 1962)
Lot (Stuart Granger) conduz seu povo para um vale fértil adjacente às cidades de Sodoma e Gomorra, locais de vício e corrupção governados pela impiedosa Rainha Bera (Anouk Aimée). Quando Lot ordena que uma represa seja rompida para evitar a destruição das cidades pelos atacantes helamitas, a rainha, em gratidão, permite que o povo de Lot se estabeleça em Sodoma. No entanto, em breve, o verniz da civilização começa a desmoronar à medida que Lot e os hebreus são corrompidos pelos sodomitas.

Fico imaginando se tivessem esperado uns 10 anos pra filmar, se o Aldrich não teria transformado isso aqui numa autêntica Sodoma e Gomorra, com imagens mais torpes e fesceninas… Claro, os filmes épicos já tinham saído de moda nos anos 70, mas quem sabe? Para um filme de 62, no entanto, ainda dá pra chamar de exploitation bíblico: temos uma belíssima sequência de batalha sangrenta, cenas de tortura, insinuações de incesto, homossexualidade, e a famosa passagem da destruição das duas cidades vinda dos céus, dignas dos melhores disaster movies, e que teve direção de segunda unidade de ninguém menos que o maior de todos: Sergio Leone. Tudo isso acaba fazendo valer o filme, mesmo com a longa e desnecessária duração, com vários momentos que eu não sentiria falta se tivessem dado uma enxugada no corte final…

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962)
Duas envelhecidas atrizes de cinema vivem como reclusas em uma casa de Hollywood. Jane Hudson, uma bem-sucedida estrela infantil, cuida de sua irmã paralítica Blanche, cuja carreira, nos últimos anos, eclipsou a de Jane. Agora, as duas vivem juntas, com seu relacionamento afetado por pensamentos subconscientes de inveja mútua, ódio, vingança e loucura. E colocar Bette Davis e Joan Crawford, que se odiavam fora das telas, para se odiarem também na frente das câmeras, foi uma dessas sacadas lendárias que fez esse pequeno horror psicológico do Aldrich se tornar o monumento que é. Mas foi também uma maneira das duas atrizes se manterem relativamente relevantes em Hollywood, onde já estavam se tornado figuras esquecidas. Especialmente Davis satiriza de maneira mais feroz e brilhante, não apenas sua própria persona, mas o favoritismo ao culto à juventude.

O filme fez bem para as carreiras de ambas naquele momento, Davis inclusive teve mais uma indicação ao Oscar com este trabalho, a sua décima primeira. Sua atuação, exagerada, insana e colossal é realmente a melhor coisa de um filme que já seria ótimo só pela forma como Aldrich conduz o que se passa aqui, um estudo de como deixar o espectador agoniado… É definitivamente um dos filmes mais tensos e nervosos que existe e eu revi roendo as unhas do início ao fim.

OS QUATRO HERÓIS DO TEXAS (4 for Texas, 1963)
Com a diligência destruída, mas recheada com $100.000 em dinheiro e moedas de ouro, os passageiros rivais Zack Thomas (Frank Sinatra) e Joe Jarrett (Dean Martin) formam uma aliança instável depois de sobreviverem a uma emboscada do impiedoso bandido Matson e seus fora da lei. No entanto, na movimentada cidade de Galveston, Texas, as coisas estão prestes a tomar um rumo pior, já que ambos os rivais têm como objetivo administrar o mesmo cassino decadente à beira do rio. Não é dos melhores trabalhos que vamos encontrar na carreira do Aldrich. O ritmo é meio caído, o diretor não parece muito disposto em gastar muita energia nisso aqui (talvez por não ter se dado bem com o Sinatra)… Mas até que valeu a pena conhecer, em especial pelo elenco, impossível não se divertir com Frank e Dino no provável único filme que fizeram juntos que não são amigos na trama. Ursula Andress e Anita Ekberg são estonteantes e ainda temos Charles Bronson como bandido. Há até uma pequena sequência na qual os Três Patetas participam… Tá certo que o filme depende um pouco da aceitação do público pelo tipo de material que o Rat Pack produzia. Eu gosto, então tá bom pra mim. Como trabalho do Aldrich, até pode ser um filme menor, mas como um veículo pra dupla Frank & Dino, funciona.

COM A MALDADE NA ALMA (Hush… Hush, Sweet Charlotte, 1964)
Uma senhora reclusa, atormentada por uma horripilante tragédia de família, mergulha na loucura após a chegada de uma parente que há muito não a via. O filme “irmão” de BABY JANE. Tem várias coisas similares em ambos, é outro thriller psicológico estrelado por duas atrizes mais experientes e reviravoltas que seguem o mesmo padrão… Mas se em BABY JANE era Bette Davis que brilhava – e aqui ela continua maravilhosa – quem rouba a cena desta vez é Olivia De Havilland, num papel cheio de nuances que escondem sua verdadeira face. Também é o filme mais violento de Aldrich até aquele momento que, para além do domínio da atmosfera do horror, da tensão, temos alguns momentos bem chocantes, com direito à mão de um jovem Bruce Dern sendo decepada por um cutelo de forma explícita na tela.

O VÔO DA PHOENIX (The Flight of the Phoenix, 1965)
Uma aeronave de carga cai em uma tempestade de areia no Saara com alguns homens a bordo. Um dos passageiros é um projetista de aviões que tem a ideia de arrancar a asa não danificada e usá-la como base para uma aeronave de reposição que eles precisam construir antes que alimentos e água se esgotem.

Um dos filmes mais famosos do Aldrich, que não acho que seja dos seus melhores, apesar de ser sempre bom rever isso aqui. Desses filmes clássicos de desastre/sobrevivência, todo correto, bem feito, divertido e mais uma aula de Aldrich, com seu talento para retratar a violência das relações humanas, como faz na maioria de seus filmes. O truque aqui reside nos personagens, grupo de homens sujos, feios e moralmente questionáveis… Temos lutas por poder, discussões enlouquecidas, más decisões e, acima de tudo, a habitual descida à insanidade. Dava pra gastar um bom tempo analisando os personagens, mas destaco o piloto teimoso e pessimista de Stewart – uma das suas atuações que mais gosto – amargurado por não conseguir manter o avião no ar e muito determinado a contradizer a maioria dos planos sugeridos; o personagem do capitão do Exército de Peter Finch, relutante em abrir mão de sua posição de comando e seu entrave com um subordinado covarde; e o alemão misterioso (Kruger) que torna-se megalomaníaco quando percebe que seu plano mestre para a sobrevivência depende inteiramente dele – o que o torna o homem mais importante do grupo, mas cuja autoridade desperta em alguns lembranças de uma guerra não tão distante… E assim o filme avança para uma mistura cativante de luta pelo poder, conto episódico de sobrevivência e saga do triunfo do espírito humano. Sim, eu sei, é muita coisa pra lidar num único filme, especialmente sem cenas mais movimentadas de ação para animar as coisas. E reconheço que talvez falte um tempero especial por aqui do nosso amigo Aldrich. Já o vimos ser mais ousado, mais explosivo. No entanto, a ação reside inteiramente na interação dos personagens, e as performances desse elenco mantêm o filme divertido do início ao fim.

ALDRICH – PARTE 2: 1956-1959

FOLHAS MORTAS (Autumn Leaves, 1956)
A carreira de Aldrich possui algumas inserções, em meio a tantos filmes masculinos, de exemplares que exploram o universo feminino com protagonistas fortes. FOLHAS MORTAS foi o primeiro, um drama que começa como um estudo sobre solidão antes que a datilógrafa interpretada por Joan Crawford receba a proposta de casamento de um homem muito mais jovem (Cliff Robertson), desencadeando a segunda metade do filme impregnada de confusão edipiana e neuroses esquizofrênicas. Aldrich, com uma câmera inventiva, eleva um conto de desejo feminino a uma obsessão histérica e tensão hitchcockiana. Não é perfeito, acho que esse material renderia mais nas mãos de um Sam Fuller (sobretudo como as coisas se desenrolam no desfecho), mas é bom pra ver como Aldrich evoluiria em relação a esse universo feminino em filmes futuros. E as atuações de Crawford e Robertson são tão boas que até passo pano pra alguns detalhes…

MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 1956)
Eu nunca tinha visto, então estava esperando uma aventura de guerra escapista e divertida, como tantas outras do período, e o Aldrich vai lá e entrega um dos melhores e mais amargos manifestos anti-guerra produzido em Hollywood durante os anos 50, transcende até o drama de guerra convencional. Na verdade, acho que já dá pra perceber até aqui que nada em Aldrich é convencional, tudo é mais complexo e humano. 

A produção não teve a habitual cooperação do exército dos EUA, que não gostou da representação de seus oficiais no filme, então Aldrich foi forçado a realizá-lo com um orçamento pequeno em pouco mais de um mês de filmagens. Acabou sendo uma lição pro diretor, ainda que tivesse que aprendê-la outras vezes, constantemente se vendo em conflito com algumas cabeças de estúdio que não gostavam dos temas que ele escolhia filmar. Ao londo da carreira, Aldrich encontraria a incompetência nos estúdios da mesma maneira que a retrata o exército americano em MORTE SEM GRÓRIA – guardando as devidas proporções – e sofreu por isso, perdendo sua própria companhia de produção em mais de uma ocasião. Mas continuou lutando e encontrou sucesso ao parecer seguir as regras enquanto na verdade as desmantelava – quer blockbuster popular mais ácido e cínico do que OS DOZE CONDENADOS? Seu ataque à complacência, incompetência e corrupção em MORTE SEM GRÓRIA é tão forte quanto o de Kubrick em GLÓRIA FEITA DE SANGUE e eu diria até mais afiado e menos sentimental. Um filme que diz tanto sobre o exército americano e a ineficiência da hierarquia militar quanto da própria visão desprezível do diretor em relação a figuras de autoridade. Vale destacar as atuações maravilhosas de Jack Palance – SPOILER expressivo até fazendo papel de cadáver FIM DO SPOILER – e Lee Marvin que consegue engolir o cenário nos poucos momentos que aparece. E tem algumas das cenas de batalhas mais violentas do período.

A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 1959)
Um rascunho de OS DOZE CONDENADOS, com o conceito fatalista de “grupo de homens em missão” que depois seria expandido para o filme de 1967, com orçamento maior, astros mais famosos e mais ação… Mas Aldrich costumava ser o primeiro a descer a lenha em A DEZ SEGUNDOS DO INFERNO, sobretudo na maneira como o retalharam no corte final, tirando mais de meia hora de uma introdução que daria mais sentido para os personagens agirem como agem. Muitos dos próprios admiradores de Aldrich admitem que é um trabalho falho. Nunca tinha assistido, só conhecia essa reputação desfavorável, mas apesar de não ser mesmo dos meus favoritos do diretor, achei excelente… Pode não cumprir a empolgação prometida no título, mas captura um lugar, um tempo, um estado de espírito com uma precisão quase documental, a Berlim pós-guerra, que era um terreno baldio de prédios destruídos por bombas, pobreza extrema, cidadãos desmoralizados e o mercado negro à todo vapor. E é nesse cenário que Aldrich traz à vida um melodrama existencial sombrio que fascina em vários níveis, desde o contraste nos estilos de atuação entre Jack Palance e Jeff Chandler (que estão geniais) até a excelente cinematografia em preto e branco de Ernest Laszlo. As sequências dos desarmamentos de bombas são verdadeiras aulas de tensão.

COLINAS DA IRA (The Angry Hills, 1959)
Das poucas coisas que salva por aqui, é uma ceninha em que Mitchum e mais um sujeito vão para um bar na Grécia e assistem a uma dançarina exótica de topless. Isso mesmo, em 1959 temos um filme do Aldrich, estrelado pelo Mitchum, com uma mulher de seios à mostra… Cheguei a fazer um post por aqui de tão surpreso que fiquei na época que assisti pela primeira vez. Depois fiquei sabendo que o Aldrich nem filmou a cena, mas o produtor Raymond Stross. A cena foi incluída apenas em algumas versões. Provável que na época nem tenham visto a moça de topless… Na verdade, havia muito pouco que Aldrich gostava em COLINAS DA IRA. Ele teve sérios conflitos com a Columbia Pictures por causa de um trabalho anterior, THE GARMENT JUNGLE, no qual fora demitido e substituído por Vincent Sherman, que recebeu o crédito de direção. Isso levou Aldrich a buscar uma maior liberdade artística na Inglaterra, onde fez o belo thriller de desarmamento de bombas que comentei acima. E logo depois iniciou essa nova empreitada, um thriller de espionagem em tempos de guerra, baseado num romance de Leon Uris, ambientado entre partisans gregos e informantes da Gestapo. Parecia um projeto ideal para Aldrich e também tinha o que parecia ser o herói perfeito nos moldes do diretor, o maior ator de todos os tempo, Robert Mitchum.

Mas no fim, o que prometia ser um exemplar emocionante, acabou resultando em algo enfadonho, com uma trama cheia de escolhas erradas, triângulos amorosos aborrecidos e um final totalmente insatisfatório… Há pouca coisa pra se aproveitar nessa aventura. Óbvio que os seios da dançarina exótica, como já disse, é um destaque e que surpreende não pela nudez em si, mas por ser quase um ato simbólico de ousadia e subversão pro tipo de produto de estúdio que é COLINAS DA IRA. Pena que foi logo no pior filme do Aldrich que vi até agora.

Parte 3 em breve.

ALDRICH – PARTE 1: 1953-1955

Ando assistindo neste início de ano aos filmes do diretor Robert Aldrich. E aqui vão uns comentários sobre:

BIG LEAGUER (1953)
Primeiro filme dirigido pelo homem. Não há muita coisa a se destacar, o próprio Aldrich dizia que o material não era pessoal, não indicava muito o que queria expressar no “meio cinematográfico”. Mas também não é de se jogar fora. É um draminha decente de esportes, sobre jovens que participam das peneiras de um time de baseball com o sonho de chegar às grandes ligas; o companheirismo que surge entre os atletas nesse universo competitivo, e etc… Mas as melhores partes acabam sendo a que tem o grande Edward G. Robinson em cena, bem à vontade, como treinador com bom senso de humor, fazendo suas expressões e, num dos momentos mais inspirados, dançando ao som de uma jukebox. E o filme tem pelo menos uma cena que já indicava o talento do Aldrich, a que um dos jovens desiste de ir embora de ônibus e a câmera acompanha – num enquadramento e movimento interessante pra época – as costas da mocinha que havia tentado convencer o rapaz de ficar… Longe de estar no nível dos grandes filmes do diretor, mas como trabalho de estreia até que se sai bem.

PÂNICO EM SINGAPURA (World for Ransom, 1954)
É meio que um rascunho de A MORTE NUM BEIJO (1955) de alguma maneira. Mas pode-se dizer que a carreira de Aldrich, com suas peculiaridades, começa aqui, nessa mistura de film noir com spy movie num território exótico, em Singapura, quando um detetive particular e as autoridades britânicas estão na cola de uma gangue com planos diabólicos, o que inclui sequestrar um físico nuclear… Aldrich já demonstra seu olhar irônico e às vezes desprezível em relação ao seu herói, algo que se tornaria característico do Diretor. Aqui, esse herói é vivido por Dan Duryea, um caso interessante. Em determinado momento o filme faz questão de mostrar como o cara é durão, badass, mas no fim acaba esbofeteado pela mulher que ama, que o iludiu de várias formas e agora o despreza. É de dar pena. Mas nada mais “aldrichiano” que isso…

Filmado em apenas 11 dias, utilizando os estúdios montados para o seriado CHINA SMITH, também com o Duryea, e que Aldrich chegou a dirigir alguns episódios. Já demonstra um diretor bem consciente visualmente e do universo fílmico que desenvolveria nas próximas três décadas.

O ÚLTIMO BRAVO (Apache, 1954)
Nunca tinha visto esse, embora seja um filme até que bem conhecido pelos fãs de faroeste clássico e dos maiores sucessos do diretor no início de carreira. Me surpreendeu como é bom! Quero dizer, Aldrich com Lancaster é sempre garantia de coisa boa, mas o filme é mais interessante que isso, já possui um caráter de revisionismo histórico que só seria consolidado no faroeste americano quase vinte anos depois. Num período em que os índios eram frequentemente retratados como alvo para levar tiro de cowboy, temos aqui uma perspectiva mais simpática, sobre um Apache obstinado chamado Massai (Lancaster) que travou uma guerra solitária contra os Estados Unidos e se tornou uma lenda tribal. Mas, como estamos num filme de Robert Aldrich, não usaria o termo “herói” para descrevê-lo. É uma figura ambígua, individualista, na qual suas facas, flechas e balas frequentemente atingem soldados brancos de surpresa e até irmãos indígenas. Sem contar o tratamento violento que dá à mulher que o ama… É preciso um esforço tremendo pra amolecer o coração do sujeito. O típico “herói” aldrichiano já tava cristalizado aqui no seu terceiro trabalho como diretor.

Apesar da jornada de Massai ter suas raízes históricas, o roteiro, adaptado de um romance chamado “Bronco Apache”, entrega uma boa dose de ação, fiel à tradição dos westerns, e Aldrich já demonstra muita habilidade na condução. E é um daqueles filmes cujo final, mais otimista, foi imposto pelo estúdio, bem diferente do que era planejado inicialmente pelo diretor… Não chega a estragar a aventura, mas é meio surreal o que fizeram aqui. Mas, como disse no início, o filme foi um sucesso. Então quem sou eu pra reclamar? Lancaster e Jean Peters estão excelentes e interpretam seus papéis indígenas com compreensão, sem os estereótipos habituais. Não sou do tipo que vai entrar em discussão sobre atores brancos fazendo “brown face” num filme de 1954, já tem muito crítico de Twitter e Letterboxd por aí chorando por causa disso. É preciso entender o contexto da época pra não ficar falando bobagens e não estregar a apreciação de um belo western como este aqui.

VERA CRUZ (1954)
Gary Cooper, Burt Lancaster, Ernest Borgnine, Jack Elam e Charles Bronson entram em um saloon… É muita gente foda junta no mesmo ambiente. Aí eu não resisto. Os dois primeiros são os protagonistas da aventura, uma jornada pelo México cheia de ação durante a Guerra Franco-Mexicana. Uma relação baseada no equilíbrio entre esses dois monstros sagrados do western americano, no carisma, cada um seguindo um código de honra muito pessoal, suas fraquezas tornando-os ainda mais humanos. Há uma dose de respeito, muita traição, umas mulheres no meio e um cofre cheio de moedas de ouro numa carruagem… Isso aqui tem tanta influência em filmes que vieram depois que não vou nem me dar o trabalho de listar, mas eu não tenho dúvida alguma que Sergio Leone devia ter este filme em alta conta.

A MORTE NUM BEIJO (Kiss Me Deadly, 1955)
Agora, isso aqui é um filme foda! Acho que já tinha uns 20 anos que não assistia e sempre guardei boas lembranças. É difícil esquecer alguns momentos especiais dessa belezinha. Mesmo assim, o impacto foi gigante nessa revisão! Não apenas pela trama e seus desdobramentos catastróficos e sombrios – até mesmo para os padrões de um film noir – mas sobretudo pela forma como Aldrich conduz isso aqui, um verdadeiro trabalho de mestre, que mais uma vez influenciou uma penca de filmes que vieram depois. E certamente é um dos seus filmes mais brilhantes, modernos, surpreendente em cada detalhe, cada movimento da trama, desde sua magistral sequência de abertura até o desfecho mítico, devastador, um dos mais aterradores da história. Numa noite, Hammer (Ralph Meeker) dá uma carona pra Christina, uma moça que tá fugindo do hospício ali por perto. Uns caras ruins aparecem e fazem o carro dele bater. Quando Hammer acorda meio grogue, escuta Christina sendo torturada até a morte. Depois de finalmente recobrar a consciência, o sujeito decide ir atrás dessa trama maluca, tanto por vingança quanto na esperança de que algo bem grande esteja por trás disso tudo.

Ralph Meeker é brutal como protagonista, leva a lógica do detetive desprezível a outro nível, e a direção de Aldrich é barroca na maneira como compõe suas imagens, agressivas e frequentemente desalinhadas, no uso dos espaços e do preto e branco, que destacam a atmosfera densa e a ameaça difusa que paira sobre uma misteriosa caixa de Pandora no cerne da trama. É a essência do film noir elevada a uma incandescência inigualável. Merecia um texto maior, mas por enquanto fica assim mesmo, só pra registrar que é uma obra-prima sem equivalente no gênero.

A GRANDE CHANTAGEM (The Big Knife, 1955)
O astro de cinema Charlie Castle (Jack Palance) entra na mira do produtor de Hollywood, Stanley Hoff (Rod Steiger), quando se recusa a assinar um novo contrato. Castle tá cansado da baixa qualidade dos filmes do estúdio e quer começar uma vida nova. Enquanto sua ex-esposa o apoia na decisão, o agente de talentos de Castle insiste pra ele reconsiderar. Quando Castle continua irredutível, Hoff apela pra chantagem pra conseguir o que quer. Uma fábula ácida sobre a podridão de Hollywood, com um Jack Palance em estado de graça, vivendo esse astro que vê seu mundo desmoronar, amarrado por um contrato com o diabo – e um Rod Steiger explosivo – e pela culpa por trágicos eventos passados. Um drama anti-indústria forte, com um texto afiado e excelentes atores – e o primeiro filme produzido pela empresa independente Associates & Aldrich – que corta Hollywood até o âmago.

Em breve, volto com a parte 2.